Por DIEGO MÜLLER

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O festival de chamamé...

 

...e o que o público precisa!!!

" (...) O público que assiste a um festival tem que assistir a um grande espetáculo, de danças, de visual tecnológico, de telões de cenas filmadas anteriormente, enfim... os organizadores de festivais tem que se reunir, debater e avançar. Tem que haver um movimento. O público de hoje tem a informação no colo, com os computadores, internet, técnologia. O público é exigente. (...) às vezes no final da premiação já não tem mais ninguém. O público já cansou. Acho que está é a caminhada deste movimento nativista!"



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Esse testemunho é de um dos maiores poetas da atualidade do nosso nativismo. Um homem do tempo antigo, artista, observador, que entende dos rumos que temos, tomamos e dos quais devemos seguir. Uma visão que dá saída para entregarmos com qualidade a nossa cultura a nosso público, motivo maior do qual os nossos eventos e festivais nativistas/culturais!


Seguido nos deparamos com eventos organizados sem pretensões maiores do que simplesmente "acontecer"... não sendo nada mais do que uma simples data num cronograma anual de agenda. A necessidade municipal seria apenas realiza-lo, ao invés de organizar algo com originalidade e com qualidade, ao invés de levar cultura (realmente) ao povo, integrando-o à arte em si, dando tecnologia (que hoje são ferramentas de transmissão e contato, das quais a maioria dos eventos não investe e ignora)... etc. Seguido nos deparamos com som precário, falta de público (por não receber novidades e atrativos no evento), locais precários, falta de camarins, falta de atenção (até grosseirismo de organizadores), falta de pagamentos, e tanto mais. Ou seja: uma desatenção enorme por parte dos órgãos com o que a cultura necessita (como elo de ligação artista-povo)! Pena!


Aí...
...em contraponto...

...Dá gosto de assistir aos shows do Festival nacional de chamamé (e festival de chamamé do mercosul), em Corrientes. Um evento regional, para o mundo. Leva o que a terra e o lugar tem de melhor e mais sagrado para longe e para altíssimos patamares. Realmente integra e dá valor ao público, principalmente. Enquanto aqui essa estrutura só vemos proporcional em "planetas atlântida" da vida! Aquele palco, aquele telão e aquela valorização qualifica qualquer apresentação... mantém o publico interessado... e integra o artista com qualificação... tanto da dança como da música e do canto!


Sem contar a integração cada vez mais forte com o RS, de tantos amigos e parceiros: Paulo De Freitas Mendonça (apresentando), Jorge Guedes, Pedro Ortaça, Luiz Carlos Borges, Elton Saldanha, João de Almeida Neto, Ernesto Fagundes e família Fagundes, Shana Muller, Alejandro Brittes (que bárbaro show chamigo)... e tantos e tantos amigos mais! Merecem esse palco mágico! ...e que palco!!!


Parabéns Corrientes (Taraguy chamiga), por nos acrescentar tanto de tua cultura e de tua terra colorada... por nos ensinar a como valorizar (de forma atualizada e moderna) nossa cultura sul-americana, que tanto apreciamos e somos parte!Parabéns por valorizar cada artista, como tal... e valorizar, principalmente, o público, tão distante hoje em dia das suas raízes mais profundas e terrunhas! Merece nosso aplauso mais sincero!

Em breve tô aí...
...com mais um lote de apaixonados por tua cultura...
...e "nuestro" chamamé!!!


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Fiesta Nacional del Chamamé 2015 - 2º Noche - Los de Imaguaré

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Fiesta Nacional del Chamamé 2015 - 10º Noche - Ballet Folclórico Nacional
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Fiesta Nacional del Chamamé 2015 - 2º Noche - Jorge Guedes y família
 
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Fiesta Nacional del Chamamé 2015 - 8º Noche - Alejandro Brittes
 
"Y es que soñar hoy es una tarea que exige a gritos nuestro pueblo y es crear el clima para nuestra fiesta, digo espacios fraternos donde uno pueda Ser, se trata de pensar con amor en el encuentro y de ir sumando lo bueno lo que conozco y sé que es mío y tuyoPatrimonio nuestro, tierra, gente, cultura, historia, pan y fe... Y al mismo tiempo ir restando miserias, mentiras, injusticias, rencor y sus tristes dolorosas consecuencias... Así me reconcilio y sigo a mi país: A ésta mi patria hermosa, cuna de lo que somos, Tierra de nuestros padres, donde yo, ustedes mis hermanos... Fuimos todos amados, y vinimos al mundo por amor Y fuimos no sé cuantas, quien sabe cuántas veces perdonados traídos hacia el bien Y así nacimos y crecimos y vivimos siempre queriendo ser hermanos que es un modo de ser!!!"

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Raza vieja...

 
 
 

Frontera... de mi raza vieja... sin frontera!

I

Nos ventos o ancestral canta
– Dos tempos que nem vivi...
Mas que retornaram aqui,
Nas penas da geografia,
E pintou mi´a genealogia
Entre índios, castelhanos,
Mesclando afros e lusitanos
Por pampas e tolderias!

De um lado vinha Ceballos...
Do outro, Pinto Bandeira...
Era o tempo a riscar fronteira
No rumo dos seus encargos...
Esta é a herança que trago,
A marca que tenho e sinto,
Com dois idiomas distintos
Hablando de um mesmo pago!

E volto desde a Cispatlina,
Pra uma catedral vazia...
Gesta onde as Missões nascia
Com São Sepé e Ñanguiru...
E neste fado xirú,
Ante o mesmo sentimento,
A Colônia do Sacramento,
O charrua e o guaicurú!

Borges do Canto y Artigas...
Madariaga y Souza Neto...
Hijos del mismo dialecto:
De chiripá y de lloronas...
De tropillas cimarronas
En criollas montoneras
Trenzando pátrias camperas
Con guitarras y acordeonas...!

Lanzas e garrões de potro
Seguiram os rastos da raça,
Nos marcos que a história traça
Aos lenços que foram clarins,
Acordando dos confins
Gumercindo e Apparício
Quando lutar era ofício
Herdado de San Martín!

Com Atahualpa e Hidalgo...
Noel Guarany e Romildo Risso,
Guardo um legado mestiço
Que recebi en la pradera...
Tenho uma alma musiquera:
Um canto pampa e barbarucho...
Um universo gaúcho...
Y un corazón sin fronteras!

E são tantos Martins Fierros...
E são muitos Santos Vegas...
Um Facundo que nos chega
Entre quileros e chiberas...
...Se a fronteira tem bandeira
Levará a color da paz,
Mostrando que meu lugar
Nunca que pediu Fronteras!

II

...Por livre tornei-me gaucho
– Voz de sinas mal-domadas –
Riscando a pampa em patriadas,
No altar da gauchería...
No meu sangue a rebeldia,
No meu olhar as lonjuras,
Sorvendo a cor das planuras,
Mandando o mundo a la cria!

E pintaram o meu retrato
Con lanzas y chiripás,
Com gritos de ya-há-há-há
Sob a copa de um sombrero...
Mas nenhum brete ou potreiro,
Resteva ou cerca de pedra,
Pode domar essa regra
De andar – tal qual o Pampero!

Três pátrias trouxe comigo,
Na garupa dos cavalos,
Templando o sangue no embalo
De mangrulhos e garruchas...
– Eis o fado que nos puxa,
Moldado em tempos de guerra...
– Eis a herança desta terra,
Forjando a alma gaúcha!

Ao longe um rumor de tropa
– Cruzando rumbos y vientos –
Traz de tiro os sentimentos
De paisanos y peones...
Recuerdos de mil canciones,
Em madrugadas guerreiras:
Viejas milongas camperas
En rueda de los fogones!

São brados de Lavalleja,
De Rosas, Flores da Cunha...
Na sinfonia terrunha,
Que Hernandez compôs na pampa...
Um rapsodo se levanta,
Que es Fierro y es Viejo Pancho...
E neles a voz dos ranchos,
Nesta guitarra que os canta!

Não fui rei... nem fui escravo
– E mandado nunca serei...
Na noite mais negra eu sei
Achar minha própria luz...
E se jamais fui Jesus
Também não fui um Viscacha,
Pois redimiu minha raça
O brio de um Isidoro Cruz!

...Desse ancestral que eu fui
– Batizado na imensidade –
Me restou a liberdade,
Deusa que eu amo e me acalma...
Fulgor maior do que D’alva
Me dando lume e consolo
E pros velhos Quixotes criollos
Que ainda habitam minh’alma...

III

...E são estas coplas que eu canto
Um rastro nas sesmarias,
Campeando as mil toldoarias
Que abrigaram o meu povo...
Faltam tentos pra o retovo,
Mas sobram notas no pinho
Pra reafirmar meus caminhos
Aos filhos do vento novo!

Eu venho de um tempo antigo,
Eternizado na estampa,
Trazendo as eras de um pampa,
Que faz do verso um portal...
Sarmiento, em meu funeral,
Pensou que a morte se fez...
Mas renasci a cada vez
– Pois minha raça é imortal!

Tinidos de ferro branco
Pelas vanguardas lanceiras,
Ante os brados das fileiras
Das guardas de Canabarro...
É a epopéia em que esbarro,
Dos Mitres, Rocas, Riveras,
Em gestas de montoneras
Forjados no mesmo barro!

Nasci assim... e assim sou,
Mescla de terra e raiz...
História que eu mesmo fiz,
Contada à luz de fogones...
Sembrada en muchas canciones
De mi raza... caminando
Y, si es preciso, peleando...
– Hasta con perros cimarrones!

Vi Garibaldi carreteando,
Desde a lagoa até o mar...
Vi Zitarrosa cantar
E Deus quedarse escuchando...
Vi Saint Hilaire cruzando,
Relatando – como eu faço –
Tempos de lança e de laço,
De arriadas e contrabandos!

Por isso meu canto é Cifra,
Es Vidala, é Serranera...
Alguna Zamba Carpera...
Y un Pericón, tan bagual...
E se fosse um país ideal
– que em minha alma se alonga –
Seria, ao certo, a Milonga
O nosso hino nacional!

...Assim desfaço os limites
Que eu mesmo ajudei fazer
– Uma ave sem se prender
Nas grades de uma bandeira...
Sou gaucho, e a vida campeira
Corre em meu sangue sulino...
E ainda sonho o destino
De un pueblo só – sin fronteras!!!




Diego Müller/Martím César Gonçalves/ José João Sampaio da Silva

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"O que a minha Pátria não puder fazer por mim eu farei por ela...
Tenho certeza que ela terá orgulho de mim...
...E eu serei cada vez mais Gaúcho!!!"

(Rogério Villagran)


domingo, 18 de janeiro de 2015

Cesária Évora...

 

CESÁRIA ÉVORA
(Mindelo, 27 de agosto de 1941 — Mindelo, 17 de dezembro de 2011)

Foi a cantora de maior reconhecimento internacional de toda história da música popular africana, cabo-verdiana. Apesar de ser sucedida em diversos outros géneros musicais, Cesária Évora foi maioritariamente relacionada com a morna, por isso também foi por vezes apelidada "rainha da morna" . Era conhecida como a diva dos pés descalços.

Cesária Évora tinha quatro irmãos. O pai Justino da Cruz tocava cavaquinho, violão e violino. Quando jovem foi viver com a avó, que havia sido educada por freiras, e assim acabou passando por uma experiência que a ensinou a desconsiderar a moralidade excessivamente severa.

Entre os amigos estava B. Leza, o compositor favorito dos cabo-verdianos, que faleceu quando ela tinha apenas sete anos de idade. Desde cedo, Cize, como era conhecida pelos amigos, começou a cantar e a apresentar-se aos domingos na praça principal da cidade, acompanhada pelo irmão Lela, no saxofone. Mas a vida está intrinsecamente ligada ao bairro do Lombo, nas imediações do quartel do exército português, onde cantou com compositores como Gregório Gonçalves. Aos 16 anos, Cesária começou a cantar em bares e hotéis e, com a ajuda de alguns músicos locais, ganhou maior notoriedade em Cabo Verde, sendo proclamada a "Rainha da Morna" pelos fãs. Aos vinte anos foi convidada a trabalhar como cantora para o Congelo - companhia de pesca criada por capital local e português -, recebendo conforme as actuações que fazia.


Em 1975, ano em que Cabo Verde conquistou a independência, Cesária, frustrada por questões pessoais e financeiras, aliadas à dificuldade económica e política do jovem país, deixou de cantar para sustentar a família. Durante este período, que se prolongou por dez anos, Cesária teve de lutar contra o alcoolismo. Igualmente, Cesária chamou a esse período de tempo, os Dark Years. Encorajada por Bana (cantor e empresário cabo-verdiano radicado em Portugal), Cesária Évora voltou a cantar, atuando em Portugal. Em Cabo Verde um francês chamado José da Silva persuadiu-a a ir para Paris e lá acabou por gravar um novo álbum em 1988 "La diva aux pieds nus" (A diva dos pés descalços) - que é como se apresenta nos palcos. Este álbum foi aclamado pela crítica, levando-a a iniciar a gravação do álbum "Miss Perfumado" (1992).

Desde então fixou residência na capital francesa. Cesária tornou-se uma estrela internacional aos 47 anos de idade. Em 2004 conquistou um prémio Grammy de melhor álbum de world music contemporânea. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, distinguiu-a, em 2009, com a medalha da Legião de Honra entregue pela ministra da Cultura francesa Christine Albanel. Em setembro de 2011, depois de cancelar um conjunto de concertos por se encontrar muito debilitada, a editora, Lusafrica, anunciou que a cantora pôs um ponto final na longa carreira.

Morreu no dia 17 de dezembro de 2011, com 70 anos, por "insuficiência cardiorrespiratória aguda e tensão cardíaca elevada".



Os seus olhos cantam. São irmãos desavindos - quando um chora, o outro sorri. Morna e coladeira na esquina do mesmo olhar. Sempre foi assim, nos dias de sombra e nos de luz também. Há um brilho especial que ilumina o seu caminho. Já assim era nos tempos em que soltava a voz numa qualquer tasca da cidade do Mindelo, a troco de um cálice de grogue. Continua assim, agora que avança com passos tão pesados quanto triunfantes, por alguns dos mais importantes palcos deste mundo. "A tristeza e a alegria são vizinhas", deixa escapar com desconcertante ingenuidade. Sem dar conta, de um sopro, Cesária Évora resume os seus sessenta anos de vida. Uma simples frase explica a música que lhe corre nas veias. Morna e coladeira, tristeza e alegria. Música e sentimento - essências de uma mulher nascida com a voz num véu de ternura. Sina de uma vida feita história, que começa com "era uma vez". Era uma vez uma ilha, uma cara esculpida na rocha, o Porto Grande a abarrotar de navios, um imenso azul a embalar sonhos impossíveis. O querer ficar mas ter de partir. A miséria.

E uma criança a beber os acordes do violino no aconchego do pai: "Quando eu era uma asneira jeito de dizer criança ele começava a tocar e metia-me entre as suas pernas. Então, eu cantava uns disparates. Não me passava pela cabeça que viria a cantar a sério." Mas a avó, educada por freiras, viu nesta cena a antecâmara do milagre que, anos mais tarde, viria a realizar-se: "Disse-me que eu tinha nascido para cantar." Aos sete anos a vida ensina-lhe a primeira de muitas lições. A morna, com o seu pulsar lento e triste, não é só saudade. É mágoa, lamento. É sofrimento. E é amor. Foi no dia em que o som do violino se apagou. Justino da Cruz Évora - Djute para os amigos - morreu, deixando instrumentos de música e cinco filhos para criar. Deixa também B. Leza, o primo, o amigo, o companheiro de tocatinas. O poeta paralítico torna-se então uma espécie de pai para Cesária: "Eu ainda era uma rapariguinha e costumava ir a sua casa." É ele quem lhe ensina que a morna é uma segunda pele. Cesária - Cize como é conhecida nas ruas do Mindelo, sua cidade natal - bebe os acordes do mestre, olhos arregalados, coração a saltitar na ponta da língua. Fica com o olhar embevecido, lábios embebidos nos poemas de B. Leza. Cruza a juventude a trautear a doce melodia de "Lua Nha Testemunha" e "Miss Perfumado". Mas são tempos difíceis.


Cresce no Mindelo, à beira do Lombo - bairro mal-afamado, terra de rufias e prostitutas. "A minha mãe era cozinheira. Quando eu tinha dez anos, ela trabalhava para a D. Maria Emília Fonseca, que era directora do orfanato. Um dia, a minha mãe pediu-lhe para me arranjar um lugar." Porém, o feitio de Cesária não se verga à rigidez do lar: "Só lá estive três anos, saturei-me." Mal respira a liberdade, enceta uma vida normal: "Ajudava em casa e dava os meus passeios." É numa dessas voltas que conhece o primeiro grande amor da sua vida - Eduardo de João Chalino, marinheiro e tocador de violão. Na frescura dos seus dezasseis anos, Cize passa a acompanhá-lo nas paródias. "Fazíamos serenatas por tudo e por nada. Era só alguém dizer ‘vamos fazer uma serenata a fulano ou a fulana’ e pronto. Às vezes, já vínhamos de algum bar e era só aproveitar a embalagem." Ainda não tinha os vícios da noite - não fumava e só bebia gasosa. Limitava-se a acompanhar o seu príncipe e a sussurrar as mornas que lhe enchiam a alma. Uma bela noite, ele descobre-lhe a pureza da voz. Que ela, tímida, teimava em esconder entre duas afinações do violão. "Comecei a cantar algumas das mornas que o Morgadinho tinha feito na Guiné. Eles estavam a ouvir mas não diziam nada. Depois, o Eduardo voltou-se para mim e disse: ‘Abre a voz e canta! Tens uma voz tão bonita e estás aqui a cantar baixinho’. Levantei a voz e ele disse: ‘Estão a ver, esta menina tem uma voz maravilhosa’."

A notícia correu mais depressa que gazela. Num abrir e fechar de olhos, o Mindelo ficou a saber que a voz da menina estrábica tinha coração, alma e magia. Que o seu timbre adocicado encantava a madrugada, enfeitiçava até a mais espessa escuridão. Cize transformou-se na princesa das serenatas. Como ainda acontece, cantava por prazer. Bastava-lhe um pouco de grogue para olear as suas delicadas cordas vocais. A pouco e pouco, começou a embrenhar-se nas teias do álcool. Talvez por isso a sua voz tenha envelhecido suave como uma boa aguardente de Santo Antão. Já não bebe, mas a sua voz continua a inebriar o mundo. Das serenatas ao vinil foi um passo de pé descalço. "O Frank Cavaquinho foi quem fez a gravação. Era eu, o Luís Rendall, e parece-me que o seu filho, o John Rendall, também participou. E outros ainda cujos nomes já não me recordo. Não me pagaram nem aos outros músicos." Mas o pior ainda estava para vir. "Um dia estava a passar em frente à montra da loja do senhor Benvindo, em plena Rua de Lisboa, quando ouvi a minha voz. Fiquei espantada."


"O Frank Cavaquinho nem sequer me ofereceu um exemplar para ficar com uma recordação.» Cesária, coração de algodão, não se deixou contaminar. Novo disco, nova desilusão. "O segundo foi com o João Mimoso, aquele comerciante de São Vicente. Também gravámos para ele e nada. Nunca vi um escudo." A tristeza é um lugar estranho. Sentimento que consome sonhos, enterra ilusões. Alimenta-se de solidão. Não raras vezes, caminha de braço dado com o álcool. Nos quase onze anos que passa sem cantar, o grogue torna-se o melhor amigo de Cesária. Nos quase onze anos em que, desiludida, esconde a voz, refugia-se do mundo e tranca-se em casa da mãe, Dona Joana, com os filhos. "Tenho um rapaz, o Eduardo, que é filho de um português, e a Fernanda, que tive com o Piduquinha, que em tempos jogou futebol no Caldas da Rainha." Como ela própria diz, um e outro são fruto "daqueles amorzinhos de juventude que não me trouxeram sorte". Ainda assim, não cultiva rancores nem dá folga a ressentimentos. Tão-pouco ao tropa português, que a engravidou ainda na juventude. "Não sei se está vivo ou morto. Deixou-me com aquele menino no ventre e nunca mais disse nada." A fortaleza familiar é pilar seguro. Cize encontra ânimo para continuar a acreditar. O regresso aos palcos e aos discos acontece em 1985. Tudo graças a um convite da Organização das Mulheres do antigo partido único - o PAICV. Às vezes, há duas sem três - dessa feita, à conta da intervenção do então primeiro-ministro Pedro Pires, consegue receber: "Falei com a sua cunhada, a Arcília, e ela marcou uma audiência com ele. Contei-lhe a história e ele pôs-me em contacto com a secretária-geral da OMCV. Fui a um encontro com ela e ela disse: ‘É quanto?’, e eu respondi: ‘São cinquenta contos’. Ela passou-me um cheque. Talvez se tivesse pedido mais, teriam dado."




SODADE

Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Ess caminho
Pa São Tomé...

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau...

Si bô 'screvê' me
'M ta 'screvê be
Si bô 'squecê me
'M ta 'squecê be
Até dia
Qui bô volta...

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau...


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"Rêza pa mim nha cretcheu... Scuta por Deus esse nha dor...
Imagem doce di nha vida... Jam crê morá na bô peito...
Pa consola'm esse nha dor!..."

(Cesária Évora)

Cultura popular...

 



"Existe grande incompreensão, como se a cultura popular fosse obrigada a ter um elitismo, uma erudição para ter o seu valor. O povo também tem o direito de escolher, e não alguém a pretensão de impor a ele o que acha ser o direito, ser o melhor. E este é um ponto de vista conflitante com os críticos (...) mas que o povo não canta, não dança. (...) ou será que esse grupo humano (mais simples e rural) não faz parte da grande sociedade? Vamos roubar-lhe a liberdade de manifestação expontânea, do que lhe agrada, o que lhe toca mais de perto, no seu interior, dentro do mundo sócio-econômico cultural em que vive? Talvez o problema é saber descobri-la, avaliá-la e valorizá-la!"

João Carlos Paixão Côrtes

Entrevista com Paixão Côrtes





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“...Seguiemos hoy (...) creyendo que es tarea fundamental ocuparse del gaucho. Porque queríamos, y queremos, una imagen real suya, no un figurón literario o un trozo de carniza disecada por el escalpelo despiadado de un pretendido 'revisionismo' que le considera 'mito' o 'bestia negra'... imagen real para contemplar, estudiar y amar, como ser de nosotros mismos, aunque puedan dolernos los ojos en su contemplación, más que por sus fulgores, tal ves por sus carencias y sus anónimos heroísmos. Buscamos encontrar sustancia cálida y auténtica, ni aserrín, ni polvo de huesos. El alma misma de la nacionalidad. Porque estudiar el gaucho ES COMO PONER LA MANO EN EL PECHO ABIERTO DE LA PATRIA, y palpar, sentir en vivo y caliente, el proprio LATIDO DE SU CORAZÓN!”
(Fernando Assunção - Uruguai)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Tão bela flor queromana...

 
 
Ritmo: Valsa

Letra: Diego Müller e Leonardo Borges
Melodia: Luiz Cardoso
Interpretação: Luiz Cardoso

Tão bela flor – Queromana – daquele rancho barreado,
De onde eu cruzo com as “tropa”... e me sinto todo arrepiado!...
– Olhar de fronte ao destino, na moldura da janela,
Com floradas no vestido... onde tu é a flor mais bela!

Fiz um verso que as estradas consumiram, junto aos ventos...
...Querendo assim te lembrar, no mais guapo sentimento!...
– Tinha algo de tempo antigo, nada dos versos de agora:
Com aura de campo largo e um fulgor de linda aurora!...

Tão bela flor – Queromana – Queromana, lá de fora...
Traz olhares de lua cheia, das que sai e se “ademora”!...
Pele clara – alma de sanga – bergamota junto aos lábios:
Calmaria e tempestade na cacimba dos ressábios!

Até sonhei com un pichón, em chanzas junto ao terreiro,
Com um cavalinho-de-pau, que pensa que é um baio oveiro!...
– Mas nunca disse o que penso, falta coragem templada...
...Queria um baile-de-rancho pra te pedir: namorada!

Tão bela flor – Queromana – tão bela flor, é verdade...
Quem sabe teu sonho moço adoce a minha ansiedade!?...
– O meu flete pensamento se aquerenciou junto a ti,
Desde a vez que um buenas tardes dos teus lábios recebi!

E dos versos que componho, sobre as horas de arreio,
Vou moldando do meu jeito a cada volta que apeio!...
...Algum dia de sol manso – depois de redemoneado –
Te entrego, pra o teu capricho, bem sujeito... e arrocinado!!!

 
 
Vigília do canto gaúcho - Cachoeira do Sul/RS - 2013
 
 
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Incrível como é a dança!!!

A dança reflete o que cada um é...

...Na dança ninguém se esconde:
- A dança não mente, define!
- A dança não incrementa, revela!

Se olharmos com calma, conseguimos decifrar cada um (de qualquer grupo) olhando o que faz em palco e como dança:
se é tímido, se é solto, se é extrovertido, se é técnico, se é mecânico, se é "pachola", inseguro, dependente, independente, etc e etc.
A dança reflete a personalidade de cada um, sem saber!

Por isso não se fala em dança... o que ela proporciona e nos traz levamos em conta em palco... é visual!

Faça de cada palco um espetáculo de definição a quem assiste...
...e se sinta bem antes, durante e após ele!
Dançarinos são guerreiros... e merecem!

Cada um tem seus vícios e "suas vidas!...
...e esse não se larga!
 
 
"A vida é uma sucessão de sucessos e insucessos...
...que se sucedem sucessivamente...
...sem cessar!"

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

As raízes...


...e o que somos!



Não é por nada que quando comentamos das coisas que nos fizeram e de onde viemos as chamamos de "RAÍZES"...

*Obs.: A raiz é o órgão de uma planta que normalmente se encontra abaixo da superfície do solo.

Tem nas suas funções principais, a de servir como meio de fixação ao solo e de ser como órgão absorvente de água e sobrevivência:
sustentação física sustentação vital, resumindo.

Nossa cultura e nossas coisas, lugares e aprendizados, são assim também...
...muito assim!
...servem de base FÍSICA (nos sustentando e nos ajudando) e são nossas bases de SOBREVIVÊNCIA (espirituais: das quais sem elas não somos nada)....
...e ainda, comentando de maneira mais poética, até podemos dizer:
nos ligam com a terra...
...e acho que, pra mim, não é nada por acaso!

Portanto...
...para se desligar das raízes próprias...
...só as cortando!

- Mas, aos que seguem esse rumo, digo:
se nos desligarmos das raízes nossas, não somos nada...
e morremos!!!
...somos ninguém!

E assim vamos...
...entendendo e exaltando a isso!



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"Mude suas opiniões, mantenha seus princípios...
Troque suas folhas, mantenha suas raízes!"

Victor Hugo
 

O tempo...

...como construtor!


O tempo nos molda e nos traça dentro do que ele mesmo acha interessante para cada indivíduo!

Com o passar do próprio tempo, nesses ambientes e culturas que avistamos, dia a dia, enquanto somos transformados em homens, passamos a nos tornar entendedores e parte integrante deles. As vezes nos distanciamos do que nos fez e nos viu amadurecer... aprendemos novos rumos... cruzamos novas porteiras.... bebemos os ares de novos mundos... nos deslumbramos com o novo e no potencial com que ele despeja em nosso ego e no nosso conhecimento (...aprender, aprendemos... claro)!...

No más, mais adiante olhamos para trás...

...nos damos conta da pouca luz... e avistamos, então, uma estrela que existia em cima de si, somente naquele local, somente naquela cultura e naquele povo que te via como parte integrante do que te fez e te defendeu!... você vê que era (e é, talvez) a bandeira daquele folclore que te esboçou... que em vez de parte integrante, a lança agora troca de mão e é você quem deve empunha-la como defensor e escudo de um tempo!

No fim das contas, sempre, olhamos para trás... vemos de onde viemos... entendemos quem somos realmente (mesmo aprendendo o que o novo lhe dá)... e, principalmente, entendemos que não se foge de maneira alguma do lugar onde você realmente é alguma coisa!

Até podemos tentar mudar nossos métodos, gostos e ambientes...podemos até querer deixar o que fomos de lado!... mas...

...O que você é não te abandona... por mais que você abandone o que você é!!!

Ande, olhe, leia e aprenda...
...e no fim de tudo, o que sobrar do que você esqueceu, de tudo isso:

ESSE É VOCÊ!!!


VALOR – é a melhor palavra
Pra definir cada ser:
Uns cheio de aprendizados
E outros tanto pra aprender!...

Mas eu só peço o que a estrada
Achar no que bem mereço...
– Enquanto uns tem VALORES,
Outros apenas tem PREÇO!

Meus VALORES são tão simples,
Pelo tempo desenhados...
- Se eu cambiar o nome deles
Os chamo de aprendizados!...

Uns, forjados na alegria...
Outros, abaixo das dores...
– Mas cada um dá bem VALOR
Ao que espelha os seus VALORES!


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"É fato: Os pássaros de mesma plumagem
procuram voar juntos!!!"

Martím César

Queromana Mariquita...

 



Interpretação: Raineri Sporh - ao vivo

https://www.youtube.com/watch?v=gKFfLSJq2ms

Ritmo: Milonga
Letra: Diego Müller, Eron Carvalho e Leonardo Borges
Música: Filipe Corso e Rafael Ferreira
Interpretação: Raineri Sporh - ao vivo


Queromana – Mariquita – te traigo junto do peito,
Com lembranças de tuas "rédia”... que me deixaram sujeito!...
– Feito um “romance” antigo: daqueles que a gente conta,
E quedam presos no tempo... que inté o tempo perde à conta!

Atei o bocal no queixo do meu pingo, Zaino – estrela –
Pra “curá o trote” na estrada, tendo a desculpa de vê-la!...
Mas teu ranchito enfeitado, na beira do corredor,
Mostrou, nas portas fechadas, um semblante em desamor!...

Mariquita – pequenita – porquê estás fazendo assim?...
– Às vezes olha em meus olhos... noutras desvias de mim!...
Qualquer dia esbarro o zaino junto aos teus sonhos de prenda...
...E conto a minha intenção, querendo que me compreenda!

Queromana – Mariquita – sonhei contigo, é verdade:
Queria vencer as distâncias no corredor da saudade!...
Quem dera ser o teu par nalgum baile de “enramada”,
E num verso recitado... te convidar: – Namorada!

Sonho um dia – este tempo! – unindo nossos destinos...
E com um templo de leivas deixar de ser um teatino!...
Até imagino – faceiro – tu com um mate na mão,
Esperando que eu desencilhe bem no portal do galpão!

Mariquita – pequenita – esperando por teu sim,
Mandei bordar num lençinho um raminho de alecrim!...
...Pra te dar – como em regalo – selando o meu sentimento,
Depois que meu coração tu colgar junto a teus tentos!!!


Interpretação: Filipe Corso

https://www.youtube.com/watch?v=kOvp4Um6ArM

Há mais de quatro anos atrás, em Lages/SC, na Sapecada da canção nativa, tivemos um tema regionalizado concorrendo do qual falava e homenageava lugares que me criei ouvindo falar, assim como pessoas que me ensinaram e cultivaram em mim muito mais do que imaginava (Do Passo ao Rincão da Raia – uma baita melodia do mestre Érlon Péricles, com grandes amigos em palco: http://www.youtube.com/watch?v=Bz3zoqoC6TU ). O tema realmente era regionalizado ao máximo, pois era a intenção proposta. O ritmo, inclusive, foi batizado com resquícios do nosso folclóre já inexistentes a nossos olhos atentos ao que acontece nos festivais e no mercado fonográfico: Queromana tropeira – Carumana tropeira. O próprio tema comentava sobre elementos folclóricos recolhidos do nosso meio campeiro e antigo. Recordo até que o ritmo e os elementos citados no tema causaram um tanto de estranheza a alguns amigos, o que também era esperado, pois a intenção era de resgate e de transmissão da mesma para com o público, onde não havia, ao tema composto, uma preocupação mais do que a normal de concorrer em eventos e de transmitir esses valores. Após a estranheza, creio que a atenção e os novos rumos que esses elementos propuseram foram bem mais evidenciados e aceitos pelo público e pelos cultos da nossa musicalidade. Bom, cito isso, pois após o tema ir a palco fui entrevistado pela emissora transmissora local, da qual a apresentadora era ex-bailarina do grupo do Barbicacho colorado (referencia da nossa dança), da qual sabe e sabia da minha trajetória nos palcos de danças e, pela sapecada, de alguns temas musicais concorrentes por aí.

Uma das perguntas então foi de como integro artisticamente o meio musical e o de danças e como vejo essa integração hoje em dia. Não me recordo bem das palavras, porém a pergunta, apesar de óbvia, me deixou um tanto sem saber me expressar. Respondi algo como que, apesar de entender os palcos e entrar em cada um de acordo com o que cada um proporciona (aceitando regulamentos e estilos do próprio evento) e sabendo trabalhar bem o lado livre-artístico e criativo, o que mais me chama a atenção e me arrepia artisticamente é o trabalho intitulado de raiz, com simplicidade e singeleza, um tanto espontâneo e ingênuo, sem intenções maiores do que apenas mostrar nosso lugar. Citei isso de modo geral, tanto do lado das danças como do lado musical, onde as vezes o requinte exagerado e uma técnica estrema de exibicionismos (ou apenas para mostrar diferenças) destruam com valores antigos e folclóricos necessários para nossa cultura, ainda.

Após essa entrevista, me parei mais atento ao que haviam me questionado, já que, até então, nunca misturei muito (e nem queria misturar) meu lado artístico musical com o dançarino. Porém, me perguntei: porque não? De repente esse era meu lugar na musicalidade local, no ambiente dos palcos festivaleiros e dos bastidores musicais e fonográficos. Pode ser! Mas como? Como integrar duas coisas totalmente opostas hoje: dança – apesar de muito antiga, extremamente regrada, institucionalizada e caricaturada. Música – extremamente livre, e mesmo assim muito ligada ao nosso povo simples, sem caricaturas. Dois polos diferentes. Musical, quase sempre opostas ao modo como as danças trabalham a cultura. E dança, sempre enxergando o meio musical com olhos de fãs e de distanciamento, um tanto como base (copiadora). A partir daí parei para raciocinar e aos poucos começaram a surgir mais temas como aquele da Sapecada, comentando regionalidades peculiares tão rurais e antigas (e verdadeiras) quanto inexistentes ao nosso meio musical. Coisas que eram corriqueiras para mim e para todos os da dança, mas que o meio musical não conhecia ou tratava como caricatura do nosso povo, muito por não conhecer mesmo. Ai estava meu rumo ou meu novo rumo musical, de agregar ao meio. Me recordo que a partir daí vieram temas tratando sobre Fichus rendados e broches de marcassita (escrito numa viagem ao rodeio de Flores da Cunha), vestidos de chita (muito apreciado e requisitados pelos meus alunos), leques floreados (para dias de carreiradas), etc. Depois vieram temas sobre Chula (baita tema, ainda inédito, citando os Serafins, os Paim, os Arruda e tantos outros serranos antigos da nossa história), Queromanas, Queromaninhas, Tiranas, Tiranas do lenço, Chimarritas, Chamarritas, Carumanas, Chamarosas, Chimarosas, Mariquitas (todas já no papel e musicadas), outras muitas estão no forno: Tatus, Anús, Graxains, Balaios, Sarnas, Balões caído, Pinheirinhos, São Gonçalos, Cana-verdes, caranguejos, etc. Instrumentos foram citados: Rabecas, violas, de dez, doze e tantas cordas, percussão com pandeiro, com espora, com facão, gaitas de botão, gaitas de colher, gaitas imigrantes, etc. Geografias foram identificadas: Fronteira, serra, litoral, localidades teutos, ítalos, planaltos, etc. Culturas resgatadas: açoritas, afro, imigração alemã, italiana, espanhola. Indumentárias também identificamos: colares prateados, anel de marcassita, fichus de renda, chalés de macramê, ceroulas de crivo, chiripas de apala, bombachas com favos de botões, bombachas com moedas, bombachas com soutaches, bombachas negras, palas a meia-espalda, palas atados a cintura, palas de seda ponchos de crivo, chapéus de palha, chapéus de cutunina, copas tropeias, abas batidas, barbicachos de crina, barbicachos de seda, etc. Momentos foram eternizados: missas, carreiradas, carpas, carreteadas, tropeadas, bailes, pendengas, bochinchos, visitas domingueiras, ternos de reis, folias do divino, terno de atiradores, etc. E assim se vão longe as imagens... muitas e tantas, das quais sempre as vi, sempre conheci, nunca citei... poucos citaram.

Quem sabe não tenha me achado, quem sabe não deva escrever mais... citar mais esse tempo e esses elementos ainda pedindo cancha aos mais novos e aos de outras localidades das quais não vivenciaram elas mesmas!? Quem sabe os informantes de cada danças e cada canto antigo desses não esteja soprando suas lembranças em formas de vento aos meus ouvidos, para que sejam transformados em palavras, relatando tempos distantes, porém cada vez mais necessários aos valores de hoje, perdidos das importâncias humanas e de respeito!? Cada tema desses conta um pouco da nossa história... e está aí para falar da gente, do nosso RS e dos nossos antigos, pessoas que precisam de respeito e de evidencias em cima dos valores que tentaram deixar. Sou e somos um elo de ligação entre esses e os que vem.

O primeiro tema destes citados a cruzar em festival foi lá na Vigília: Tão bela flor Queromana, numa baita valsa, linda, composta pelo mestre Luiz Cardoso. Me orgulho muito desse tema, como e porque foi feita e de como foi apresentada em palco, tanto em Cachoeira do Sul quando em vacaria (trazendo o tema de volta ao meio das danças). A segunda foi apresentada em Campo Bom, num tema com grandes amigos do meio das danças, antigos... Meu nome não vale nada, baseado na Tirana do lenço (que em breve publico aqui para todos)! E a terceira, dessa vez (num tema do qual me gusta muito... e tanto), já está quase em palco, na sexta-feira, em Cachoeira do Sul, num dos festivais mais importantes da história do RS. E não vai mal a cavalo: a melodia é de um baita amigo, que vi crescer com as próprias pernas no meio dos festivais, lutando por suas bandeiras... Filipe Calvete Corso... e hoje, uma das maiores novidades melodistas que nossa estado já teve... Agradeço muito por essa parceria!!! Sem contar que em palco teremos outro grande amigo, da qual penso ser a maior voz desse nosso estado hoje... Raineri Spohr! Baita time e baita força... Assim, aproveito a deixa do tema apresentado (e explanado acima), para citar essa importância do que canto hoje e do que busco cantar, pois mais amigos se identificaram com essas imagens e aderiram ao “projeto”, nunca oficial... fico feliz e aplaudo a cada um, pois cada um trás sua história e seus valores para cada tema citado.

Para finalizar, agradeço ao irmão Leonardo Borges, homem de Santana do Livramento, gente de campo, imagem rural e cerne de respeito. A mesma Livramento de Paixão Côrtes, pedra fundamental do nosso conhecimento e palavra final na mesma, já citada acima. Leonardo foi aquele que abraçou mais do que ninguém a causa, entendeu a mesma e trabalha lado a lado, fazendo fiador para essa ideia, ainda um tanto utópica e distante do imaginado. Talvez não seja por acaso que de novo Livramento esteja dentre os que resgataram nossa cultura do mundo rural para o mundo do registro... Aproveito para intima-lo a, mais adiante, transformarmos essas dezenas de temas em um livro e um CD, com ilustrações suas, muito folclóre e comentários tantos sobre cada tema, juntando visões de campo aos mesmos e visões de palco harmonizadas juntamente. Te prepara meu galo! hahaha!

Encerro aqui este texto desejando uma ótima sorte e um baita palco a todos os concorrentes da Vigília, onde humildemente (como sempre) traremos ao palco um pouco da nossa história e do que somos e fomos!...

Contem comigo!...
...E muita coisa mais virá!


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*Queromana Mariquita: Tema dos antigos, como um romance, recolhido e divulgado por Paixão Côrtes. Muitas quadrinhas e estórias da Queromana Mariquita (ou Queromaninha Mariquita, ou só Mariquita) se perderam com o tempo.
*Romance: Modo como os antigos chamavas poemas contando estórias folclóricas, ou décimas, ou Rimances. Ex.: Décima do potro baio – romance do potro baio – Rimance do potro baio.
*Curá o trote: Desenvolver e firmar o trote do bagual.
*Bagual: Animal equino em estágio de doma, também chamado de redomão.
*Colgar: atar, juntar, enlaçar.
Vigília do Canto gaúcho - Cachoeira do Sul/RS - Novembro de 2014




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"A cultura assusta muito.
É uma coisa apavorante para os ditadores.
Um povo que lê nunca será um povo de escravos!"

Antônio Lobo Antunes

Casa de MBororé...

 ...Uma lenda missioneira!


No tempo dos Sete Povos das Missões, havia um índio velho muito fiel aos padres jesuítas, chamado MBororé. Com a chegada dos invasores portugueses e espanhóis, os padres precisaram fugir levando em carretas os tesouros e bens que pudessem carregar. Assim, amontoaram o muito que não podiam levar consigo – ouro, prata, alfaias, jóias, tudo!- e construíram ao redor uma casa branca, sem porta e sem janela. Para evitar a descoberta da casa pelo inimigo e o conseqüente saqueio, deixaram o velho índio fiel MBororé cuidando, com ordens severas de só entregar o tesouro quando os jesuítas voltassem às Missões.


Mas os jesuítas nunca mais voltaram. Com o passar dos anos, o velho índio morreu e o tempo foi marcando tudo, deixando as ruínas de pé como as cicatrizes de um sonho que acabou. Acabou? Não. A Casa de MBororé continua lá num mato das Missões, imaculadamente branca, cuidada pela alma do índio fiel que ainda espera a volta dos jesuítas.


Às vezes, algum mateiro –lenhador ou caçador- dá com ela, derepente, num campestre qualquer. Imediatamente dá-se conta de que é a Casa de MBororé, cheia de tesouros. Resolve então marcar bem o local para voltar com ferramentas e abrir a força a casa que não tem porta nem janela. Guarda bem o lugar na memória pelas árvores tais e tais, pela direção do sol e coisas assim. Sai, volta com ferramentas, só que nunca mais acha de novo a Casa Branca de MBororé, sem porta e sem janela.”


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Eu tenho dentro do peito, 
Num fundão de Itaimbé,
A casa, que, pelo jeito,
É a mesma de M´bororé!

Não tem portas, nem janelas!
Ouro e prata é um mundaréu!
E, quando, as vezes, vou vê-la,
Penso até que estou no céu!

É onde guardo com vaidade
– Quem não se envaideceria! –
O ouro em filão de alegria,
Prata pura de saudade!

Mas, ontem, eu lá chegando,
Vi, com enorme surpresa,
Que à roda andava a tristeza
Como o cacique, rondando...

(Zeca Blau)

 
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"Arte pra mim não é produto de mercado.
Podem me chamar de romântico.
Arte pra mim é missão, vocação e festa!"

Ariano Suassuna

sábado, 10 de janeiro de 2015

A dança...

...e espontaneidade!



Nas épocas antigas da nossa dança, lá pelos inícios do Mobral, na década de 70, os concursos eram avaliados e encarados de maneira extremamente criativa e artística (apenas), onde as apresentações mais "bonitas" ganhavam os eventos e se destacavam dentre os outros. Os avaliadores eram geralmente artistas e renomados nomes do nosso folclore e da nossa cultura (Nico Fagundes era um deles, por exemplo). Lá por 83, o curso de Panambi foi meio revolucionário para a quebra desse paradigma e dessa prática de danças da qual vivíamos (ainda essa semana olhei as atas e os textos coreográficos divulgados pelo curso de Panambi, ministrado por Paixão Côrtes). Nesse momento se deram conta de que existia uma coreografia básica para balizar o que se devia dançar (o Manual de danças era escasso nesse momento aos Ctgs e grupos, pelo que eu saiba). A coreografia antes "inexistente" (da maneira como existe hoje) se tornou uma importância e tão relevante fonte de atuação, onde se tratou a tal quase como uma força-tarefa de resgate, passando a se cobrada de maneira rígida e constante, sempre batendo em cima dela, extremamente. Esse foi o início e o motivo da perpetuação da rigidez e do militarismo que vimos tanto nas décadas de 80 em nossas danças e fegarts, gerando uma harmonia extrema aos grupos e uma cobrança da coreografia quase a ponto de "risco de vida", pela importância que se tinha (e se tem). A coreografia é "a primeira linha" do caderno... O primeiro ponto... O erro inadmissível!



https://www.youtube.com/watch?v=DI4eayaymtg

A partir de 91 (fenart, seminários, cursos do Paixão, etc), a preocupação de alguns instrutores (talvez a frente de seus tempo ou ansiosos por novos aprendizados) geraram um segundo passo a ser dado, após a fixação da coreografia. Era a segunda linha do caderno! Se identificou que a "imagem" que devemos passar também devia de ser mais correta possível, e a uniformização afetava esse modo de apresentar o que éramos. Se registou isso em livro, e a Carta de Vacaria e seu livro detalhado, se tornaram um bíblia quase para esse novo caminho. A imagem que passamos a representar era mais individual, não grupal, mas personalizada... A pilcha era o cartão de visita! Cada integrante começou a se vestir como "gosta" e com peculiaridades que somente ele poderia defender (de corpo proprio, função, trabalho, época, etc). Esse foi um novo caminho. Isso se abraçou de tal maneira (proporcional a "tarefa" das coreografias, iniciada em 83) que virou a bandeira contrária do que antes tivemos: 83 a coreografia, a rigidez, a harmonia, a cobrança, a uniformização. E 92 a Indumentaria, a flexibilidade, a personalidade. Bandeiras hoje vistas como "contrárias" pelos caminhos e eventos que se geraram a partir de si. Porém... Acho se parou por ai e não se devia! Faltou um outro passo, do qual hoje não se avança, ou não se avança mais! Faltou a terceira linha do caderno e de repente o terceiro pé dessa trempe, dessa tríade que a dança deve de se ter: 92, pra mim, era para ser também a bandeira do gauchismo, do campeirismo, do modo de dançar solto, da personalidade individual na dança também!



Posso estar enganado do que notei dos aprendizados que tive, ou então tive uma visão diferente para caminhos iguais (da qual deve de ser diferente)... Porém ainda defendo minha bandeira e é ela que quero seguir, por minha história me mostrar e me ensinar ela, justamente. Palavras e frases como "dançar com espiritualidade", citada no livro da Carta de Vacaria (também visitado essa semana) ficam na minha cabeça mostrando de que meu caminho não está de todo errado, pois não creio numa desuniformização nas indumentárias se mantendo um modo de dançar rígido e extremamente harmônico, sem individualidade, preocupado com milímetros de passos e posicionamentos, sem a individualidade e os "defeitos" que cada dançarino tem e que deve de ter para ser os "belos" na dança! São coisas que não conversam, diferentes! Esse sim seria o terceiro passo, da qual se perdeu com o tempo e não se ultrapassou mais, justamente pelo signo do concurso. Um modo de dançar mais campeiro, recheado de gauchismo e de personalidade e espiritualidade, enche os olhos e encanta o público. Sem contar que brilha mais nos olhos de quem dança também! Dá vontade de dançar! Já uma apresentação extremamente harmônica, mecânica e rígida sempre facilita o instrutor e o avaliador, e até engana e tapa dançarinos inseguros, mas não ensina!



https://www.youtube.com/watch?v=DrmsQlxRT5c

De lambuja, um pequeno causo que me ensinou e muito e abriu meus olhos para isso que explico: em um rodeio de Flores da Cunha, 2004 ou 2005 acho, Seu Paixão avaliava (como sempre) e a dança era o anú. No meio do mesmo, em plena final de domingo do concorrido rodeio, o "posteiro" comanda o bate-palma, e um dançarino "desatendo", porém sempre bem apresentador dos nosso antepassados, com muito gauchismo, salta um cerra-e-trava na hora errada. E, em sua ligeireza, já emenda de vereda um bate-palma corrigindo o ato. Todos na dança olham de canto de olho preocupados, mas metem "balaka" para segurar a dança... E o Seu Paixão larga uma gargalhada e se encanta pelo ato. No fim do evento o grupo se sagra campeão, e para a surpresa de todo as notas do mesmo anú foram as notas máximas na planilha do Seu Paixão, de certo encantado mesmo, justamente pelo Gauchismo apresentado no "erro"! Esse ato me ensinou muito e me fez "reentender" o que os livros e os cursos relatavam, desde o livreto da Carta de Vacaria.



https://www.youtube.com/watch?v=gGyKlnZZvfQ

Acredito que a personalidade e o gauchismo, tanto citado (dos três tópicos citados nesse texto), para o Seu Paixão deve de ser o principal... Explicando suas frases de "danças com espiritualidade", "dançar com a cabeça", etc e etc. O próprio livro cita exageros "medíocres" (ele cita assim) de descontos de lencinho de bolso vir ao chão, ou do detalhe milimétrico do comprimento da saia de uma prenda, a exatidão harmônica e realização conjunta e igual de um giro de saudação, territorialidades transformadas em rígidas posições e distâncias entre pares e dançarinos, perfeições de alinhamentos, disciplinas militares na dança, dando maior ênfase a essas "minúcias" ao invés de um todo e de um CONTEÚDO... ESSA É A PALAVRA: conteúdo!... Perdendo nos grupos a explosão emocional humana e o bem dançar NATURAL (esta escrito assim)! Defendemos bandeiras que nem o Seu Paixão quer que defendamos... E isso foi criado e espalhado por nós! Há de se rever... E é isso que nos falta, pelo menos para mim que gosto de assistir e aplaudir os outros. paixão é quase que um profeta, posso dizer assim! Falta gauchismo e personalidade, sobra rigidez coreográfica e harmônica... Se fixou a coreografia, se desuniformizou, mas falta personalidade e ser realmente um homem do sul! Faltam apresentações que ensinam e sobram apresentações que resolvem o prêmio momentaneamente!

Acho que o terceiro passo ainda pode ser dado!
Acho que podemos ser gaúchos realmente...
...podemos não ser extremos!

Abraços sinceros!


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"Não é um DEVER ser gaúcho:
é um PRIVILÉGIO ser gaúcho!"
João Carlos D´Ávila Paixão Côrtes

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A salamanca do Jarau


Com manhas de Salamanca    


De onde virá tamanho encanto
De Salamanca ventena?
Sabor de mel em seus lábios,
Sede de amor que nos queima...

No enleio das tuas miradas
Mesmo o mais livre se rende...
Quanto mais se solta a armada
Bem mais seu laço nos prende!

Mas de onde é que virá
Tão imenso encantamento?
Queria fugir... já não quero!
Porque estou preso por dentro!

Pois se tu és a Teiniaguá?!...
Moura princesa em seu lume
Vem dizer-me as Sete Provas
Quero ser o teu Blau Nunes!

De onde virá tamanho embrujo
De rio que nunca dá vau?
Eu te oferto o vinho santo
Mas não voltes pra o Jarau!

Que me esconjurem os crentes...
Minh’alma é quem paga a banca!
Quero é o teu jeito profano
Com manhas de Salamanca!!!

Diego Muller/Martim César

Baseado no conto ‘A salamanca do Jarau’ de João Simões Lopes Neto.



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A lenda da Salamanca do Jarau


João Simões Lopes Netto

A Salamanca do Jarau é uma lenda gaúcha, também conhecida como lenda da Teiniaguá, que conta a história de uma princesa moura que se transformara em bruxa, e que teria vindo em uma urna de Salamanca, na Espanha, e acabou indo morar em uma caverna no Cerro do Jarau, Quaraí no Rio Grande do Sul.
Esta lenda, registrada por João Simões Lopes Neto e publicada pela primeira vez no ano de 1913, inspirou Érico Veríssimo a escrever partes de seu romance O Tempo e o Vento.


No tempo dos padres jesuítas, existia um moço sacristão no Povo de Santo Tomé, na Argentina, do outro lado do rio Uruguai. Ele morava numa cela de pedra nos fundos da própria igreja, na praça principal da aldeia.
Ora, num verão mui forte, com um sol de rachar, ele não conseguiu dormir a sesta. Vai então, levantou-se, assoleado e foi até a beira da lagoa refrescar-se. Levava consigo uma guampa, que usava como copo.
Coisa estranha: a lagoa toda fervia e largava um vapor sufocante e qual não é a surpresa do sacristão ao ver sair d'água a própria Teiniaguá, na forma de uma lagartixa com a cabeça de fogo, colorada como um carbúnculo. Ele, homem religioso, sabia que a Teiniaguá - os padres diziam isso!- tinha partes com o Diabo Vermelho, o Anhangá-Pitã, que tentava os homens e arrastava todos para o inferno. Mas sabia também que a Teiniaguá era mulher, uma princesa moura encantada jamais tocada por homem.

Aquele pelo qual se apaixonasse seria feliz para sempre.
Assim, num gesto rápido, aprisionou a Teiniagá na guampa e voltou correndo para a igreja, sem se importar com o calor. Passou o dia inteiro metido na cela, inquieto, louco que chegasse a noite.
Quando as sombras finalmente desceram sobre a aldeia, ele não se sofreu: destampou a guampa para ver a Teiniaguá. Aí, o milagre: a Teiniaguá se transformou na princesa moura, que sorriu para ele e pediu vinho, com os lábios vermelhos. Ora, vinho só o da Santa Missa. Louco de amor, ele não pensou duas vezes: roubou o vinho sagrado e assim, bebendo e amando, eles passaram a noite.
No outro dia, o sacristão não prestava para nada. Mas, quando chegou a noite, tudo se repetiu. E assim foi até que os padres finalmente desconfiaram e numa madrugada invadiram a cela do sacristão. A princesa moura transformou-se em Teiniaguá e fugiu para as barrancas do rio Uruguai, mas o moço, embriagado pelo vinho e de amor foi preso e acorrentado.
Como o crime era horrível - contra Deus e a Igreja! - foi condenado a morrer no garrote vil, na praça, diante da igreja que ele tinha profanado.



No dia da execução, todo o Povo se reuniu diante da igreja de São Tomé. Então, lá das barrancas do rio Uruguai a Teiniaguá sentiu que seu amado corria perigo. Aí, com todo o poder de sua magia, começou a procurar o sacristão abrindo rombos na terra, um valos
enormes, rasgando tudo. Por um desses valos ela finalmente chegou à igreja bem na hora em que o carrasco ia garrotear o sacristão. O que se viu foi um estouro muito grande, nessa hora, parecia que o mundo inteiro vinha abaixo, houve fogo, fumaça e enxofre e tudo afundou e tudo desapareceu de vista. E quando as coisas clarearam a Teiniaguá tinha libertado o sacristão e voltado com ele para as barrancas do rio Uruguai.

Vai daí, atravessou o rio para o lado de cá e ficou uns três dias em São Francisco de Borja, procurando um lugar afastado onde os dois apaixonados pudessem viver em paz. Assim, foram parar no Cerro do Jarau, no Quaraim, onde descobriram uma caverna muito funda e comprida. E lá foram morar, os dois.
Essa caverna, no alto do Cerro, ficou encantada. Virou Salamanca, que quer dizer "gruta mágica", a Salamanca do Jarau. Quem tivesse
coragem de entrar lá, passasse 7 Provas e conseguisse sair, ficava com o corpo fechado e com sorte no amor e no dinheiro para o
resto da vida.
Na Salamanca do Jarau a Teiniaguá e o sacristão se tornaram os pais dos primeiros gaúchos do Rio Grande do Sul. Ah, ali vive
também a Mãe do Ouro, na forma de uma enorme bola de fogo. Às vezes, nas tardes ameaçando chuva, dá um grande estouro numa
das cabeças do Cerro e pula uma elevação para outra. Muita gente viu.



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"Alma forte e coração sereno!
A furna escura está lá: entra! Entra!"

João Simões Lopes Neto