Por DIEGO MÜLLER

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Queromana Mariquita...

 



Interpretação: Raineri Sporh - ao vivo

https://www.youtube.com/watch?v=gKFfLSJq2ms

Ritmo: Milonga
Letra: Diego Müller, Eron Carvalho e Leonardo Borges
Música: Filipe Corso e Rafael Ferreira
Interpretação: Raineri Sporh - ao vivo


Queromana – Mariquita – te traigo junto do peito,
Com lembranças de tuas "rédia”... que me deixaram sujeito!...
– Feito um “romance” antigo: daqueles que a gente conta,
E quedam presos no tempo... que inté o tempo perde à conta!

Atei o bocal no queixo do meu pingo, Zaino – estrela –
Pra “curá o trote” na estrada, tendo a desculpa de vê-la!...
Mas teu ranchito enfeitado, na beira do corredor,
Mostrou, nas portas fechadas, um semblante em desamor!...

Mariquita – pequenita – porquê estás fazendo assim?...
– Às vezes olha em meus olhos... noutras desvias de mim!...
Qualquer dia esbarro o zaino junto aos teus sonhos de prenda...
...E conto a minha intenção, querendo que me compreenda!

Queromana – Mariquita – sonhei contigo, é verdade:
Queria vencer as distâncias no corredor da saudade!...
Quem dera ser o teu par nalgum baile de “enramada”,
E num verso recitado... te convidar: – Namorada!

Sonho um dia – este tempo! – unindo nossos destinos...
E com um templo de leivas deixar de ser um teatino!...
Até imagino – faceiro – tu com um mate na mão,
Esperando que eu desencilhe bem no portal do galpão!

Mariquita – pequenita – esperando por teu sim,
Mandei bordar num lençinho um raminho de alecrim!...
...Pra te dar – como em regalo – selando o meu sentimento,
Depois que meu coração tu colgar junto a teus tentos!!!


Interpretação: Filipe Corso

https://www.youtube.com/watch?v=kOvp4Um6ArM

Há mais de quatro anos atrás, em Lages/SC, na Sapecada da canção nativa, tivemos um tema regionalizado concorrendo do qual falava e homenageava lugares que me criei ouvindo falar, assim como pessoas que me ensinaram e cultivaram em mim muito mais do que imaginava (Do Passo ao Rincão da Raia – uma baita melodia do mestre Érlon Péricles, com grandes amigos em palco: http://www.youtube.com/watch?v=Bz3zoqoC6TU ). O tema realmente era regionalizado ao máximo, pois era a intenção proposta. O ritmo, inclusive, foi batizado com resquícios do nosso folclóre já inexistentes a nossos olhos atentos ao que acontece nos festivais e no mercado fonográfico: Queromana tropeira – Carumana tropeira. O próprio tema comentava sobre elementos folclóricos recolhidos do nosso meio campeiro e antigo. Recordo até que o ritmo e os elementos citados no tema causaram um tanto de estranheza a alguns amigos, o que também era esperado, pois a intenção era de resgate e de transmissão da mesma para com o público, onde não havia, ao tema composto, uma preocupação mais do que a normal de concorrer em eventos e de transmitir esses valores. Após a estranheza, creio que a atenção e os novos rumos que esses elementos propuseram foram bem mais evidenciados e aceitos pelo público e pelos cultos da nossa musicalidade. Bom, cito isso, pois após o tema ir a palco fui entrevistado pela emissora transmissora local, da qual a apresentadora era ex-bailarina do grupo do Barbicacho colorado (referencia da nossa dança), da qual sabe e sabia da minha trajetória nos palcos de danças e, pela sapecada, de alguns temas musicais concorrentes por aí.

Uma das perguntas então foi de como integro artisticamente o meio musical e o de danças e como vejo essa integração hoje em dia. Não me recordo bem das palavras, porém a pergunta, apesar de óbvia, me deixou um tanto sem saber me expressar. Respondi algo como que, apesar de entender os palcos e entrar em cada um de acordo com o que cada um proporciona (aceitando regulamentos e estilos do próprio evento) e sabendo trabalhar bem o lado livre-artístico e criativo, o que mais me chama a atenção e me arrepia artisticamente é o trabalho intitulado de raiz, com simplicidade e singeleza, um tanto espontâneo e ingênuo, sem intenções maiores do que apenas mostrar nosso lugar. Citei isso de modo geral, tanto do lado das danças como do lado musical, onde as vezes o requinte exagerado e uma técnica estrema de exibicionismos (ou apenas para mostrar diferenças) destruam com valores antigos e folclóricos necessários para nossa cultura, ainda.

Após essa entrevista, me parei mais atento ao que haviam me questionado, já que, até então, nunca misturei muito (e nem queria misturar) meu lado artístico musical com o dançarino. Porém, me perguntei: porque não? De repente esse era meu lugar na musicalidade local, no ambiente dos palcos festivaleiros e dos bastidores musicais e fonográficos. Pode ser! Mas como? Como integrar duas coisas totalmente opostas hoje: dança – apesar de muito antiga, extremamente regrada, institucionalizada e caricaturada. Música – extremamente livre, e mesmo assim muito ligada ao nosso povo simples, sem caricaturas. Dois polos diferentes. Musical, quase sempre opostas ao modo como as danças trabalham a cultura. E dança, sempre enxergando o meio musical com olhos de fãs e de distanciamento, um tanto como base (copiadora). A partir daí parei para raciocinar e aos poucos começaram a surgir mais temas como aquele da Sapecada, comentando regionalidades peculiares tão rurais e antigas (e verdadeiras) quanto inexistentes ao nosso meio musical. Coisas que eram corriqueiras para mim e para todos os da dança, mas que o meio musical não conhecia ou tratava como caricatura do nosso povo, muito por não conhecer mesmo. Ai estava meu rumo ou meu novo rumo musical, de agregar ao meio. Me recordo que a partir daí vieram temas tratando sobre Fichus rendados e broches de marcassita (escrito numa viagem ao rodeio de Flores da Cunha), vestidos de chita (muito apreciado e requisitados pelos meus alunos), leques floreados (para dias de carreiradas), etc. Depois vieram temas sobre Chula (baita tema, ainda inédito, citando os Serafins, os Paim, os Arruda e tantos outros serranos antigos da nossa história), Queromanas, Queromaninhas, Tiranas, Tiranas do lenço, Chimarritas, Chamarritas, Carumanas, Chamarosas, Chimarosas, Mariquitas (todas já no papel e musicadas), outras muitas estão no forno: Tatus, Anús, Graxains, Balaios, Sarnas, Balões caído, Pinheirinhos, São Gonçalos, Cana-verdes, caranguejos, etc. Instrumentos foram citados: Rabecas, violas, de dez, doze e tantas cordas, percussão com pandeiro, com espora, com facão, gaitas de botão, gaitas de colher, gaitas imigrantes, etc. Geografias foram identificadas: Fronteira, serra, litoral, localidades teutos, ítalos, planaltos, etc. Culturas resgatadas: açoritas, afro, imigração alemã, italiana, espanhola. Indumentárias também identificamos: colares prateados, anel de marcassita, fichus de renda, chalés de macramê, ceroulas de crivo, chiripas de apala, bombachas com favos de botões, bombachas com moedas, bombachas com soutaches, bombachas negras, palas a meia-espalda, palas atados a cintura, palas de seda ponchos de crivo, chapéus de palha, chapéus de cutunina, copas tropeias, abas batidas, barbicachos de crina, barbicachos de seda, etc. Momentos foram eternizados: missas, carreiradas, carpas, carreteadas, tropeadas, bailes, pendengas, bochinchos, visitas domingueiras, ternos de reis, folias do divino, terno de atiradores, etc. E assim se vão longe as imagens... muitas e tantas, das quais sempre as vi, sempre conheci, nunca citei... poucos citaram.

Quem sabe não tenha me achado, quem sabe não deva escrever mais... citar mais esse tempo e esses elementos ainda pedindo cancha aos mais novos e aos de outras localidades das quais não vivenciaram elas mesmas!? Quem sabe os informantes de cada danças e cada canto antigo desses não esteja soprando suas lembranças em formas de vento aos meus ouvidos, para que sejam transformados em palavras, relatando tempos distantes, porém cada vez mais necessários aos valores de hoje, perdidos das importâncias humanas e de respeito!? Cada tema desses conta um pouco da nossa história... e está aí para falar da gente, do nosso RS e dos nossos antigos, pessoas que precisam de respeito e de evidencias em cima dos valores que tentaram deixar. Sou e somos um elo de ligação entre esses e os que vem.

O primeiro tema destes citados a cruzar em festival foi lá na Vigília: Tão bela flor Queromana, numa baita valsa, linda, composta pelo mestre Luiz Cardoso. Me orgulho muito desse tema, como e porque foi feita e de como foi apresentada em palco, tanto em Cachoeira do Sul quando em vacaria (trazendo o tema de volta ao meio das danças). A segunda foi apresentada em Campo Bom, num tema com grandes amigos do meio das danças, antigos... Meu nome não vale nada, baseado na Tirana do lenço (que em breve publico aqui para todos)! E a terceira, dessa vez (num tema do qual me gusta muito... e tanto), já está quase em palco, na sexta-feira, em Cachoeira do Sul, num dos festivais mais importantes da história do RS. E não vai mal a cavalo: a melodia é de um baita amigo, que vi crescer com as próprias pernas no meio dos festivais, lutando por suas bandeiras... Filipe Calvete Corso... e hoje, uma das maiores novidades melodistas que nossa estado já teve... Agradeço muito por essa parceria!!! Sem contar que em palco teremos outro grande amigo, da qual penso ser a maior voz desse nosso estado hoje... Raineri Spohr! Baita time e baita força... Assim, aproveito a deixa do tema apresentado (e explanado acima), para citar essa importância do que canto hoje e do que busco cantar, pois mais amigos se identificaram com essas imagens e aderiram ao “projeto”, nunca oficial... fico feliz e aplaudo a cada um, pois cada um trás sua história e seus valores para cada tema citado.

Para finalizar, agradeço ao irmão Leonardo Borges, homem de Santana do Livramento, gente de campo, imagem rural e cerne de respeito. A mesma Livramento de Paixão Côrtes, pedra fundamental do nosso conhecimento e palavra final na mesma, já citada acima. Leonardo foi aquele que abraçou mais do que ninguém a causa, entendeu a mesma e trabalha lado a lado, fazendo fiador para essa ideia, ainda um tanto utópica e distante do imaginado. Talvez não seja por acaso que de novo Livramento esteja dentre os que resgataram nossa cultura do mundo rural para o mundo do registro... Aproveito para intima-lo a, mais adiante, transformarmos essas dezenas de temas em um livro e um CD, com ilustrações suas, muito folclóre e comentários tantos sobre cada tema, juntando visões de campo aos mesmos e visões de palco harmonizadas juntamente. Te prepara meu galo! hahaha!

Encerro aqui este texto desejando uma ótima sorte e um baita palco a todos os concorrentes da Vigília, onde humildemente (como sempre) traremos ao palco um pouco da nossa história e do que somos e fomos!...

Contem comigo!...
...E muita coisa mais virá!


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*Queromana Mariquita: Tema dos antigos, como um romance, recolhido e divulgado por Paixão Côrtes. Muitas quadrinhas e estórias da Queromana Mariquita (ou Queromaninha Mariquita, ou só Mariquita) se perderam com o tempo.
*Romance: Modo como os antigos chamavas poemas contando estórias folclóricas, ou décimas, ou Rimances. Ex.: Décima do potro baio – romance do potro baio – Rimance do potro baio.
*Curá o trote: Desenvolver e firmar o trote do bagual.
*Bagual: Animal equino em estágio de doma, também chamado de redomão.
*Colgar: atar, juntar, enlaçar.
Vigília do Canto gaúcho - Cachoeira do Sul/RS - Novembro de 2014




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"A cultura assusta muito.
É uma coisa apavorante para os ditadores.
Um povo que lê nunca será um povo de escravos!"

Antônio Lobo Antunes

Casa de MBororé...

 ...Uma lenda missioneira!


No tempo dos Sete Povos das Missões, havia um índio velho muito fiel aos padres jesuítas, chamado MBororé. Com a chegada dos invasores portugueses e espanhóis, os padres precisaram fugir levando em carretas os tesouros e bens que pudessem carregar. Assim, amontoaram o muito que não podiam levar consigo – ouro, prata, alfaias, jóias, tudo!- e construíram ao redor uma casa branca, sem porta e sem janela. Para evitar a descoberta da casa pelo inimigo e o conseqüente saqueio, deixaram o velho índio fiel MBororé cuidando, com ordens severas de só entregar o tesouro quando os jesuítas voltassem às Missões.


Mas os jesuítas nunca mais voltaram. Com o passar dos anos, o velho índio morreu e o tempo foi marcando tudo, deixando as ruínas de pé como as cicatrizes de um sonho que acabou. Acabou? Não. A Casa de MBororé continua lá num mato das Missões, imaculadamente branca, cuidada pela alma do índio fiel que ainda espera a volta dos jesuítas.


Às vezes, algum mateiro –lenhador ou caçador- dá com ela, derepente, num campestre qualquer. Imediatamente dá-se conta de que é a Casa de MBororé, cheia de tesouros. Resolve então marcar bem o local para voltar com ferramentas e abrir a força a casa que não tem porta nem janela. Guarda bem o lugar na memória pelas árvores tais e tais, pela direção do sol e coisas assim. Sai, volta com ferramentas, só que nunca mais acha de novo a Casa Branca de MBororé, sem porta e sem janela.”


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Eu tenho dentro do peito, 
Num fundão de Itaimbé,
A casa, que, pelo jeito,
É a mesma de M´bororé!

Não tem portas, nem janelas!
Ouro e prata é um mundaréu!
E, quando, as vezes, vou vê-la,
Penso até que estou no céu!

É onde guardo com vaidade
– Quem não se envaideceria! –
O ouro em filão de alegria,
Prata pura de saudade!

Mas, ontem, eu lá chegando,
Vi, com enorme surpresa,
Que à roda andava a tristeza
Como o cacique, rondando...

(Zeca Blau)

 
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"Arte pra mim não é produto de mercado.
Podem me chamar de romântico.
Arte pra mim é missão, vocação e festa!"

Ariano Suassuna

sábado, 10 de janeiro de 2015

A dança...

...e espontaneidade!



Nas épocas antigas da nossa dança, lá pelos inícios do Mobral, na década de 70, os concursos eram avaliados e encarados de maneira extremamente criativa e artística (apenas), onde as apresentações mais "bonitas" ganhavam os eventos e se destacavam dentre os outros. Os avaliadores eram geralmente artistas e renomados nomes do nosso folclore e da nossa cultura (Nico Fagundes era um deles, por exemplo). Lá por 83, o curso de Panambi foi meio revolucionário para a quebra desse paradigma e dessa prática de danças da qual vivíamos (ainda essa semana olhei as atas e os textos coreográficos divulgados pelo curso de Panambi, ministrado por Paixão Côrtes). Nesse momento se deram conta de que existia uma coreografia básica para balizar o que se devia dançar (o Manual de danças era escasso nesse momento aos Ctgs e grupos, pelo que eu saiba). A coreografia antes "inexistente" (da maneira como existe hoje) se tornou uma importância e tão relevante fonte de atuação, onde se tratou a tal quase como uma força-tarefa de resgate, passando a se cobrada de maneira rígida e constante, sempre batendo em cima dela, extremamente. Esse foi o início e o motivo da perpetuação da rigidez e do militarismo que vimos tanto nas décadas de 80 em nossas danças e fegarts, gerando uma harmonia extrema aos grupos e uma cobrança da coreografia quase a ponto de "risco de vida", pela importância que se tinha (e se tem). A coreografia é "a primeira linha" do caderno... O primeiro ponto... O erro inadmissível!



https://www.youtube.com/watch?v=DI4eayaymtg

A partir de 91 (fenart, seminários, cursos do Paixão, etc), a preocupação de alguns instrutores (talvez a frente de seus tempo ou ansiosos por novos aprendizados) geraram um segundo passo a ser dado, após a fixação da coreografia. Era a segunda linha do caderno! Se identificou que a "imagem" que devemos passar também devia de ser mais correta possível, e a uniformização afetava esse modo de apresentar o que éramos. Se registou isso em livro, e a Carta de Vacaria e seu livro detalhado, se tornaram um bíblia quase para esse novo caminho. A imagem que passamos a representar era mais individual, não grupal, mas personalizada... A pilcha era o cartão de visita! Cada integrante começou a se vestir como "gosta" e com peculiaridades que somente ele poderia defender (de corpo proprio, função, trabalho, época, etc). Esse foi um novo caminho. Isso se abraçou de tal maneira (proporcional a "tarefa" das coreografias, iniciada em 83) que virou a bandeira contrária do que antes tivemos: 83 a coreografia, a rigidez, a harmonia, a cobrança, a uniformização. E 92 a Indumentaria, a flexibilidade, a personalidade. Bandeiras hoje vistas como "contrárias" pelos caminhos e eventos que se geraram a partir de si. Porém... Acho se parou por ai e não se devia! Faltou um outro passo, do qual hoje não se avança, ou não se avança mais! Faltou a terceira linha do caderno e de repente o terceiro pé dessa trempe, dessa tríade que a dança deve de se ter: 92, pra mim, era para ser também a bandeira do gauchismo, do campeirismo, do modo de dançar solto, da personalidade individual na dança também!



Posso estar enganado do que notei dos aprendizados que tive, ou então tive uma visão diferente para caminhos iguais (da qual deve de ser diferente)... Porém ainda defendo minha bandeira e é ela que quero seguir, por minha história me mostrar e me ensinar ela, justamente. Palavras e frases como "dançar com espiritualidade", citada no livro da Carta de Vacaria (também visitado essa semana) ficam na minha cabeça mostrando de que meu caminho não está de todo errado, pois não creio numa desuniformização nas indumentárias se mantendo um modo de dançar rígido e extremamente harmônico, sem individualidade, preocupado com milímetros de passos e posicionamentos, sem a individualidade e os "defeitos" que cada dançarino tem e que deve de ter para ser os "belos" na dança! São coisas que não conversam, diferentes! Esse sim seria o terceiro passo, da qual se perdeu com o tempo e não se ultrapassou mais, justamente pelo signo do concurso. Um modo de dançar mais campeiro, recheado de gauchismo e de personalidade e espiritualidade, enche os olhos e encanta o público. Sem contar que brilha mais nos olhos de quem dança também! Dá vontade de dançar! Já uma apresentação extremamente harmônica, mecânica e rígida sempre facilita o instrutor e o avaliador, e até engana e tapa dançarinos inseguros, mas não ensina!



https://www.youtube.com/watch?v=DrmsQlxRT5c

De lambuja, um pequeno causo que me ensinou e muito e abriu meus olhos para isso que explico: em um rodeio de Flores da Cunha, 2004 ou 2005 acho, Seu Paixão avaliava (como sempre) e a dança era o anú. No meio do mesmo, em plena final de domingo do concorrido rodeio, o "posteiro" comanda o bate-palma, e um dançarino "desatendo", porém sempre bem apresentador dos nosso antepassados, com muito gauchismo, salta um cerra-e-trava na hora errada. E, em sua ligeireza, já emenda de vereda um bate-palma corrigindo o ato. Todos na dança olham de canto de olho preocupados, mas metem "balaka" para segurar a dança... E o Seu Paixão larga uma gargalhada e se encanta pelo ato. No fim do evento o grupo se sagra campeão, e para a surpresa de todo as notas do mesmo anú foram as notas máximas na planilha do Seu Paixão, de certo encantado mesmo, justamente pelo Gauchismo apresentado no "erro"! Esse ato me ensinou muito e me fez "reentender" o que os livros e os cursos relatavam, desde o livreto da Carta de Vacaria.



https://www.youtube.com/watch?v=gGyKlnZZvfQ

Acredito que a personalidade e o gauchismo, tanto citado (dos três tópicos citados nesse texto), para o Seu Paixão deve de ser o principal... Explicando suas frases de "danças com espiritualidade", "dançar com a cabeça", etc e etc. O próprio livro cita exageros "medíocres" (ele cita assim) de descontos de lencinho de bolso vir ao chão, ou do detalhe milimétrico do comprimento da saia de uma prenda, a exatidão harmônica e realização conjunta e igual de um giro de saudação, territorialidades transformadas em rígidas posições e distâncias entre pares e dançarinos, perfeições de alinhamentos, disciplinas militares na dança, dando maior ênfase a essas "minúcias" ao invés de um todo e de um CONTEÚDO... ESSA É A PALAVRA: conteúdo!... Perdendo nos grupos a explosão emocional humana e o bem dançar NATURAL (esta escrito assim)! Defendemos bandeiras que nem o Seu Paixão quer que defendamos... E isso foi criado e espalhado por nós! Há de se rever... E é isso que nos falta, pelo menos para mim que gosto de assistir e aplaudir os outros. paixão é quase que um profeta, posso dizer assim! Falta gauchismo e personalidade, sobra rigidez coreográfica e harmônica... Se fixou a coreografia, se desuniformizou, mas falta personalidade e ser realmente um homem do sul! Faltam apresentações que ensinam e sobram apresentações que resolvem o prêmio momentaneamente!

Acho que o terceiro passo ainda pode ser dado!
Acho que podemos ser gaúchos realmente...
...podemos não ser extremos!

Abraços sinceros!


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"Não é um DEVER ser gaúcho:
é um PRIVILÉGIO ser gaúcho!"
João Carlos D´Ávila Paixão Côrtes

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A salamanca do Jarau


Com manhas de Salamanca    


De onde virá tamanho encanto
De Salamanca ventena?
Sabor de mel em seus lábios,
Sede de amor que nos queima...

No enleio das tuas miradas
Mesmo o mais livre se rende...
Quanto mais se solta a armada
Bem mais seu laço nos prende!

Mas de onde é que virá
Tão imenso encantamento?
Queria fugir... já não quero!
Porque estou preso por dentro!

Pois se tu és a Teiniaguá?!...
Moura princesa em seu lume
Vem dizer-me as Sete Provas
Quero ser o teu Blau Nunes!

De onde virá tamanho embrujo
De rio que nunca dá vau?
Eu te oferto o vinho santo
Mas não voltes pra o Jarau!

Que me esconjurem os crentes...
Minh’alma é quem paga a banca!
Quero é o teu jeito profano
Com manhas de Salamanca!!!

Diego Muller/Martim César

Baseado no conto ‘A salamanca do Jarau’ de João Simões Lopes Neto.



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A lenda da Salamanca do Jarau


João Simões Lopes Netto

A Salamanca do Jarau é uma lenda gaúcha, também conhecida como lenda da Teiniaguá, que conta a história de uma princesa moura que se transformara em bruxa, e que teria vindo em uma urna de Salamanca, na Espanha, e acabou indo morar em uma caverna no Cerro do Jarau, Quaraí no Rio Grande do Sul.
Esta lenda, registrada por João Simões Lopes Neto e publicada pela primeira vez no ano de 1913, inspirou Érico Veríssimo a escrever partes de seu romance O Tempo e o Vento.


No tempo dos padres jesuítas, existia um moço sacristão no Povo de Santo Tomé, na Argentina, do outro lado do rio Uruguai. Ele morava numa cela de pedra nos fundos da própria igreja, na praça principal da aldeia.
Ora, num verão mui forte, com um sol de rachar, ele não conseguiu dormir a sesta. Vai então, levantou-se, assoleado e foi até a beira da lagoa refrescar-se. Levava consigo uma guampa, que usava como copo.
Coisa estranha: a lagoa toda fervia e largava um vapor sufocante e qual não é a surpresa do sacristão ao ver sair d'água a própria Teiniaguá, na forma de uma lagartixa com a cabeça de fogo, colorada como um carbúnculo. Ele, homem religioso, sabia que a Teiniaguá - os padres diziam isso!- tinha partes com o Diabo Vermelho, o Anhangá-Pitã, que tentava os homens e arrastava todos para o inferno. Mas sabia também que a Teiniaguá era mulher, uma princesa moura encantada jamais tocada por homem.

Aquele pelo qual se apaixonasse seria feliz para sempre.
Assim, num gesto rápido, aprisionou a Teiniagá na guampa e voltou correndo para a igreja, sem se importar com o calor. Passou o dia inteiro metido na cela, inquieto, louco que chegasse a noite.
Quando as sombras finalmente desceram sobre a aldeia, ele não se sofreu: destampou a guampa para ver a Teiniaguá. Aí, o milagre: a Teiniaguá se transformou na princesa moura, que sorriu para ele e pediu vinho, com os lábios vermelhos. Ora, vinho só o da Santa Missa. Louco de amor, ele não pensou duas vezes: roubou o vinho sagrado e assim, bebendo e amando, eles passaram a noite.
No outro dia, o sacristão não prestava para nada. Mas, quando chegou a noite, tudo se repetiu. E assim foi até que os padres finalmente desconfiaram e numa madrugada invadiram a cela do sacristão. A princesa moura transformou-se em Teiniaguá e fugiu para as barrancas do rio Uruguai, mas o moço, embriagado pelo vinho e de amor foi preso e acorrentado.
Como o crime era horrível - contra Deus e a Igreja! - foi condenado a morrer no garrote vil, na praça, diante da igreja que ele tinha profanado.



No dia da execução, todo o Povo se reuniu diante da igreja de São Tomé. Então, lá das barrancas do rio Uruguai a Teiniaguá sentiu que seu amado corria perigo. Aí, com todo o poder de sua magia, começou a procurar o sacristão abrindo rombos na terra, um valos
enormes, rasgando tudo. Por um desses valos ela finalmente chegou à igreja bem na hora em que o carrasco ia garrotear o sacristão. O que se viu foi um estouro muito grande, nessa hora, parecia que o mundo inteiro vinha abaixo, houve fogo, fumaça e enxofre e tudo afundou e tudo desapareceu de vista. E quando as coisas clarearam a Teiniaguá tinha libertado o sacristão e voltado com ele para as barrancas do rio Uruguai.

Vai daí, atravessou o rio para o lado de cá e ficou uns três dias em São Francisco de Borja, procurando um lugar afastado onde os dois apaixonados pudessem viver em paz. Assim, foram parar no Cerro do Jarau, no Quaraim, onde descobriram uma caverna muito funda e comprida. E lá foram morar, os dois.
Essa caverna, no alto do Cerro, ficou encantada. Virou Salamanca, que quer dizer "gruta mágica", a Salamanca do Jarau. Quem tivesse
coragem de entrar lá, passasse 7 Provas e conseguisse sair, ficava com o corpo fechado e com sorte no amor e no dinheiro para o
resto da vida.
Na Salamanca do Jarau a Teiniaguá e o sacristão se tornaram os pais dos primeiros gaúchos do Rio Grande do Sul. Ah, ali vive
também a Mãe do Ouro, na forma de uma enorme bola de fogo. Às vezes, nas tardes ameaçando chuva, dá um grande estouro numa
das cabeças do Cerro e pula uma elevação para outra. Muita gente viu.



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"Alma forte e coração sereno!
A furna escura está lá: entra! Entra!"

João Simões Lopes Neto
 

 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Escrever...

... e (re) escrever!!!



Nesse mês já bem passado de setembro, muita coisa se parou saudosista em meio a tanta correria e tantos compromissos, incluindo muitas músicas que há anos não ouvia, CDs que há tempos não revia, assim como músicas que marcaram um ciclo de amadurecimento e aprendizado musical, hoje impregnado em tudo que faço como pessoa e nos ramos em que atuo. Retornei há um mundo do qual nem notei ter me afastado, se somando ao quase encerramento do ano de 2014, onde os festivais terminam seus ciclos, num ano do qual nunca me esquecerei, com obras carinhosamente aplaudidas e abraçadas no palco dos mesmos. Assim, absorvendo tudo isso, em meio há muitas charlas e bate-papos, muitos assados e muitas noites de truco, alguns me perguntaram quando e como comecei a escrever, ou a tentar colocar idéias e passagens em forma de versos. Nunca parei para analisar todo esse processo, que vejo hoje como natural (e com naturalidade) e sempre em crescimento, mudança e amadurecimento.

Mas tentarei, acho, relatar e citar a todos...
...Até para ficar como registro!

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Vamos ver por onde começo (tentarei ser cronológico e detalhado)!...

Minha vida em casa sempre foi rodeada (maciçamente) de muito material sobre cultura, de muita cultura mesmo. Muito disco, muito livro, recortes de jornais, fitas de vídeo, fitas k7, e tudo mais que se possa imaginar. Meu pai sempre foi um rato de cultura, a ponto de emprestar e ceder muito de suas buscas e sua biblioteca até ao próprio Paixão Côrtes (amigo do qual temos, com muita honra e respeito), para complemento e "pesquisa" de suas pesquisas. Acho que ele (meu pai) teve uma barbara influência para essa busca de material com alguns dos antigos do CTG Brazão do Rio Grande de Canoas/RS, entidade que me viu nascer e me criou. Acho que o "Sr. Neco" tenha sido o maior influenciador, não sei bem... Mas Acredito! Eu brincava em meio a livros importantes e raros da nossa cultura, sem nem saber da importância deles (como as primeiras edições de Lendas do sul, de Simões Lopes Neto, primeiras edições dos livros de Aureliano de Figueiredo Pinto, versões variadas de Martim Fierro, capa de couro, capa de madeira, obras de Debred, Fernando Assunção, Carlos Vega, Berutti, Saubidet, livros autografados por Zeca Blau, Jayme Caetano Braun, Aparício, etc e etc). Muitas vezes acabei estragando livros importantes desses brincando de algo que nem me lembro o que era. Haha. Coisa de guri e de convívio normal com essas preciosidades. As tardes de sábado lá em casa, que eram dias de limpeza, eram regadas ao som Ernesto Montiel, Antonio Tarrago Rós, Coquimarola, Los Chalchaleros, Los fronteirizos, etc. Dos repertórios gaúchos se ouvia muito vinil, pois tínhamos muitos (cuidados até hoje): Variava entre Os mirins (antigos), Os serranos (antigos), Airton Pimentel, Mário Barbará Dornelles, Os posteiros, coletâneas de galpão crioulo, Gilberto Monteiro, dentre muito mais. Festivais também eram apreciados e colecionados: Califórnia (todos), Coxilha, Carijo, Reponte,Tertúlia, Primavera, todos da Vigilia e todos da Reculuta, dentre muito mais.

Escutava muitas histórias dos amigos mais próximos, que possuíam contato com grandes nomes do nosso gauchismo. Noel Guarany certa vez passou por canoas e parou no CTG Brazão do Rio Grande, na década de 70, mostrando um pouco de seu trabalho, cantando potro sem dono, na tentativa de buscar recursos para gravação de seus discos. Shows com Cenair Maicá foram realizados dentro dessa mesma entidade. Os fronteiriços, de Algacir Costa, Clari Costa (do Yamandu no colo), muito baile animou nesse mesmo galpão. Histórias dos muúripas em parceria com os maiores nomes do nosso nativismo, em festivais e shows. Tudo isso se acumulava cheio de glamour em meu pensamento de piá. Quase fantasia!

Paralelo a isso, inevitável de aceitar que os concursos e os CTGs, e seu meio de danças, tenham me aproximado de pessoas e de grupos das quais me mostraram rumos coerentes com toda cultura que eu tive sempre em casa - identificação. O Fegart, em Farroupilha, sempre me mostrou muita coisa diferente da qual sempre via em canoas mesmo, com muita cultura e manifestações tantas. Nas épocas de 92, 93 e 94, por exemplo. Ou o Fecart catarinense de 94. Os grupos do Rui Arruda Antunes (e de seus irmãos Mario Arruda, Carla Arruda, Carlos Arruda... e do amigo e mestre Ramiro Amorim). Assim como os rodeios de Araranguá 95, e tanto mais. Os livros de danças e versos para danças eram constantes lá em casa, onde consultava seguido para leitura pessoal e cultural própria. O auge disso tudo foi em 96, creio, onde numa ida ao rodeio internacional de Vacaria me deparei com grupos de danças referências, dos quais sempre imaginei assistir e assimilar. Me recordo do entusiasmo de guri de 15 anos assistindo aquele evento todo, chula, dança, declamação, canto, shows, etc... Muita gente gaúcha. E no meio dos concursos de danças, vendo esses grupos referências, escutar quadrinhas que nunca tinha escutado, porém com um sentido e uma roupagem folclórica de muito e total valor. Aquilo sim mexeu comigo... E numa estranheza bárbara de saber porque nunca havia visto antes aquelas quadrinhas inéditas (para mim e talvez para todos do evento). Estranheza, pois, a maioria dos livros de danças que possa imaginar e de quadras eu tinha e não prestava tanta atenção assim, talvez... Não sei! Não sabia bem! Eram versos de tatus, cana verdes, chamarritas, pau de fitas, etc e etc. Muita coisa nova, nunca antes assimilada, onde os grupos faziam questão de colocar essas novidades em palco. Bom, Chegando em casa catei todos esses livros, ainda embalado pelo êxtase pôs vacaria, juntei um a um em meu quarto. Revirei todos, li todos... E resolvi fazer uma coleção (com apenas 15 anos) a estilo "cancioneiro guasca" e "cancioneiro gaúcho", de todas essas trovinhas populares e folclóricas. Ao todo formaram uma junção de 2000 para mais... Que aumentavam a cada dia, de maneira muito espontânea. Juntei em 3 livros separados, escritos e catalogados a mão... E foram tantas danças e temas: tiranas, queromanas, chamarritas, rancheiras de carreirinha, além das mais conhecidas. Haviam as inéditas também, como a cachaça, o fumo, serrana, pinheiro, etc e etc. Muita coisa! Ícaro Aquino acompanhou um tanto dessa época, e muito estranhou os CDs que passava para fita k7 em sua casa, haha (o que depois virou um grande e importante site pioneiro de divulgação importante da nossa música).

Nesse mesmo ano (1996) Canoas abraçou o seu primeiro festival de musicas. A canoa do canto nativo, com participação de muitos nomes clássicos da época dos festivais. Os maiores nomes daquela década estavam em canoas, cruzando nos bastidores e nos camarins do qual eu também cruzava (por ter meus pais e tios trabalhando e ajudando na organização do mesmo evento). Pia de 15 anos conhecendo de perto cada artista e suas peculiaridades: Passarinho, Paim, Mano Lima, Luiz Carlos Borges, Daniel Torres, Lucio Yanel, Gilberto, dentre tantos mais. Mais uma experiência a mostrar um local mágico do qual sempre almejei chegar a partir disso. Na época lugar impossível... Mas sonho!

Nessa época ia, uma vez por ano, a casa dos meus padrinhos Celso Costa e Sonia India Soares DA Costa, em Santo Antônio da Patrulha, onde via e me encantava com as guitarradas crioulas do celso, cantando temas folclóricos, como rancheiras recolhidas do folclore e muito mais coisas que também não imaginava. Me recordo de uma das noites tocando: menina, casa comigo... De uma maneira diferente da qual eu conhecia, diferente da versão pesquisada por João Sampaio e musicada por Pedro Ortaça. Voltando de lá, já somado ao que assimilei dos versos recolhidos, nasceu em uma noite de sábado um tema (pela primeira vez pra mim) criado de minha lavra dentro do meu quarto... Era uma letrinhas simples e singela, a estilo "menina casa comigo" que citei! Pena que se perdeu no tempo, mas me recordo que tinha imagem e roupagem tão folclórica quanto as 2000 quadrinhas populares das quais juntei com o tempo. Nessa época estudava no primeiro ano do segundo grau, na escola cristo redentor, de canoas... E numa das aulas de segunda-feira de manha me deparei distante da aula, escrevendo uns versos sobre o vento... Inspirado em letras específicas do Jayme Caetano Braun! A letra essa já se parou feia, pois tinha roupagem mais "festivaleiro" e não tão ingênua e folclórica como a anterior! Mas para aprendizado, acho que valeu e muito! Tema esse que também se perdeu no tempo! Pena!

Bom, voltando às influências...
Um dos meus amigos (conservados até hoje), muito identificado com a cultura gaúcha, ia seguido para a serra gaúcha, em Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Antônio Prado e Farroupilha, da qual convivia com pessoas iluminadas do nosso gauchismo, da qual defendem a bandeira com guardiões de uma patria... E ensinam realmente os outros sobre essa bandeira levantada. Adriano Bruzza voltava da serra trazendo varias dicas e idéias sobre tudo o que era visão gaúcha das coisas! Certa feita revirando meu acervo de discos (do pai), acervo que sabia que existia mas nem tanto me importava em olhar com calma (pelo costume de te-lo sempre tão perto) ele buscou e se espantou com discos clássicos, da qual esses mesmos seus amigos serranos jamais conseguiram encontrar e idolatravam como relíquias do nosso cancioneiro (e eram mesmo): discos todos de Noel Guarany, todos de Cenair Maicá, todos de Pedro Ortaça, muita coisa de Jaime Caetano Braun, o primeiro disco de Luiz Marenco (cantando Jayme), Chaloy Jara, Dedé Cunha, Reduzino Maluquias, e assim por diante. No primeiro momento não entendi tanto o espanto dele... Mas com o tempo óbvio que eu mesmo fui me apavorando. Nas suas tentativas de passar todos aquele material para cassete, me animava também e realizava as mesmas cópias. Muito do que hoje faço e escrevo me vem desse momento, que ainda guardo em minha visão, como se fosse hoje! Muito mareamos eu, Adriano e oMarcelo Wolf (Benvindo) assimilando essas "novidades" para nós!

Nessa mesma época meu quarto era quase que um galpão estancieiro, uma extensão da casa grande, onde eu trabalhava (empolgado, como sempre, com as coisas de grupos de danças e seus acessórios) com couro, tentos e loucas... Nada de guasqueiro, muitíssimo longe disso. Realizava na verdade as feições de tentos para atar esporas, coldres para guaiacas, barbicachos crus para chapéus, algum incremento para bainhas e facas, e tudo mais. O "olor" de couro e de cebo era instigaste e me deixou marcas até hoje de nostalgia e gauchismo, da qual não sei se entenderão ou se eu consigo explicar. Fórmula tempo que me ensinou demais. O som desse quarto era regado a toca fita, onde ia para casas de amigos e passava todos aqueles discos citados anteriormente para fita cassete, e escutava nas noites pós aula. Noel Guarany sempre era o preferido. Sempre o que mais me emocionava. Em segundo lugar Luiz Marenco. E assim me revezava. Um pouco depois, veio o cd... E compramos alguns que iam saindo nas lojas, como primeiros exemplares de uma cultura que estava ganhando nova mídia e novo mercado. Não possuía aparelho de cd, apenas os discos. Então nova,ente ia eu para a casa dos amigos realizar a cópia deles para fitas magnéticas... E Te hoje lembro dos primeiros CDs comprados e escutados. Todos eles marcaram na feição da cultura musical que hoje agrego: Jorge Guedes (o primeiro individual), Joca Martins, Xucro ofício (o que mais gosto desse cantor), Calogornia da canção nativa (contendo o clássico e perfeito tema: GAÚCHO, do Jayme e do Talo Pereyra, cantado pelo Guedes), Luiz Marenco, em De a cavalo, Pedro Ortaça (o primeiro com os filhos), Cenair Maicá (caminhos) e Troncos Missioneiros. Esses foram os discos que mais me marcaram. Com o tempo vieram outros tantos e mais. Mas esses foram os primeiros! E se repetiram tantas vezes!

Com o tempo fui me interessando pela leitura de poemas e no descobrimento maior e não tão superficial em Jayme Caetano Braun, Aparício silva Rillo e Aureliano de Figueiredo Pinto. Tinha em casa todos os livros deles, incluindo algumas edições autografadas pelos mesmos. Vejam só! E nesse meio tempo descobri (nos CDs e nos discos) João Sampaio, José João Sampaio da Silva... Nome do qual me passava um enorme folclore só em lê-lo! Identificava nesse nome e em suas obras uma força e um tempo muito antigo e singelo ainda permanente em suas escritas, pois era e sempre foi o mais fértil dos poetas do RS. Resolvi então escrever umas coisas... Coisas de principiante... E escrever ao Sampaio, em Itaqui, para saber de seu aval sobre o que tinha posto no papel, e em de repente ter umas parceiras com esse mestre, totalmente despretensiosas. Queria muito conhecer e saber de alguma parceria com o parceiro de Noel Guarany, Pedro Ortaça, Jorge Guedes e Luiz Marenco. Mandei uma carta... Com 8 poemas, e o meu desejo de escrever, de lambuja junto. Estava no banho e não é que o dito me liga!? Sai correndo para atender e o mesmo me recita dois dos poemas já prontos em parceria!... nem esperava! Minha emoção foi enorme, coisa de guri! Imaginem! Ele agradeceu e disse que seria um prazer a parceria,me que na mesma semana enviava os mesmos 8 poemas prontos e digitados. E enviou. Imagina minha satisfação! O primeiro poema da parceira já tinha sido enviada e musicada pelo Walther Morais (hoje canoense), do qual admirada desde a época dos Serranos, com alguns temas clássicos da qual todos ouviam. E assim me animei e segui escrevendo! Essa parceria com o Sampaio se perpetuou e rendeu em torno de 400 temas, mais ou menos (nunca contados precisamente)... Todas muito ricas em folclore e cheiro de terra! Me orgulho de cada uma e de tudo que aprendi e aprendo com ele, suas paisagens, seus lugares, seus professores e seus pensamentos! Muito de minha poesia é causa dele e dedicada a ele!

Quis mais... e segui a frequentar cada festival do qual podia ir... nunca assistia as músicas. As mesmas escutava a posterior nos CDs ou nas rádios (quando ainda aviam rádios com programas de festivais). Ficava nos bastidores... falava, escutava, cuidava, olhava, aprendia... e muito me fiz dessas charlas! Conheci cada canto do Rio Grande... Itaqui, São Borja, Uruguaiana, Santa Rosa, Jaguarão, Livramento, Bagé, Aceguá, Rio Grande, Sãi Luiz Gonzaga, Maçambará, Mbororé, Santiago, Jaguari, Santa Maria, Tupãnciretã, fronteira, missões, serra, litoral, centro... conheci bolichos... canchas de carreira... taperas.... estâncias... chácaras... granjas... carreteras... corredores... rinhadeiros... pesqueiros... rios... campos... casarões... italianos... alemães... polakos... crioulos... mastiços... guaranys... almas charruas... castelhanos... chibeiros... contrabandistas... músicos... declamadores... carreteiros.... e tudo mais que esses interiores podem nos acrescentar! Olhei e cuidei cada um... assimilei muito de Rio Grande e muito de nossa gente!

Com o tempo ainda andando conheci e realizei o sonho de ter parceiros com todos os meus mestres e com quase todos os que escutava quando era pia... guarde a amizade de todos como grandiosos regalos e eternos aprendizados: Pedro Ortaça, Jorge Guedes, Valdomiro Maica, João Sampaio, Rodrigo Bauer, Joca Martins e tantos mais. Outros conheci na estrada e se tornaram grandes e preciosos parceiros e amigos, dos quais só lamento a distância para mates mais constantes e regados de aprendizados: Martim César, Érlon Péricles, Cristiano Quevedo, Leonardo Borges, SGoulart Muller, Robledo Martins, Edilberto Bérgamo, Cristiano Fantinel, Halber Lopes, Binho Pires, Everson Maré Silveira, Oscar Massitta, Alessandro Gonçalves, Paulo Timm, Piero Ereno, Raineri Spohr,Marcelo De Araújo Nunes, Ricardo Comassetto, e tantos mais!

E assim fui indo. E assim estou indo!...
...sem querer ser artista (minha profissão é outra), sem querer ser mai que ninguém, sem pretensões de "livros" ou "cds" como troféus maiores da minha "obra"... da qual fala muito de mim e muito de cada coisa que olhei e que tenho como valores!

Ainda nesse meio encontramos e sempre encontraremos pessoas iluminadas das quais também damos algumas simples dicas, que abrem porteiras para subir cada vez mais nesse ramo musical e compositor... Como o caso do amigo Filipe Calvete Corso, que pra mim tem sido uma das mais agradáveis e gaúchas surpresas dos festivais atuais (assim como seu irmão Henrique Corso). Muitos outros assumi a parceria e levei por diante, para vê-los felizes com suas obras, e pra ver se lidam melhor com seus talentos, como Maurão Augusto Cenci, Alex Cabral, Mauricio Nunes, e alguns outros amigos, dos quais sempre os quero bem!

Fico feliz pelo meu "dom" e pelo trabalho e suor que coloco em cima dele. Sempre fui muito difícil para mim escrever e dizer em forma de verso com qualidade tudo o que penso. Sou capricorniano, quieto, fechado, observador... escuto mais do que falo... o que se torna inevitável a necessidade da palavra escrita para falar de mim! Aprendi isso! Por isso do meu estremo orgulho e do meu modo de divulgação do que realizo. Vaidade quanto as obras, não tenho... Orgulho, sim: são filhos dos quais olho sempre, escuto, leio e divulgo aos que conheço e me conhecem!



Bandeiras levanto...
...E sempre erguerei!

"Há braços" aos amigos...
...e sigam com seus Valores!

E que 2015 seja cada vez mais repleto de luz, cultura e de pessoas boas!

Diego Müller de sempre!!!

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"Eu não escrevo em português... Escrevo eu mesmo!!!"
Fernando Pessoa

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Pássaro com asas de âncora...

...por Fabrício Carpinejar



Posso jogar fora nossas fotografias, posso jogar fora poemas, posso jogar fora nossos objetos em comum, posso jogar fora nossos lugares prediletos, posso jogar fora nosso dialeto, posso jogar fora nossos rituais, posso jogar fora, acredite, posso jogar, mas não consigo jogar fora o jeito bonito que lhe amei. Olho para o meu amor por você e não consigo descartar. O meu amor por você era tão bonito.
Eu lhe amei como nunca amei ninguém. Como apagar, como esquecer, como fingir que não faz parte de mim?
Eu lhe amei com toda a minha devoção, antecipava voos para ganhar alguns minutos ao seu lado. Eu lhe amei com todas as surpresas que poderia inventar. Eu modificava minha agenda para lhe oferecer carona. Eu não reclamava de me acordar antes para preparar seu café. Você pedia, eu fazia. Você balbuciava, eu fazia. Você duvidava, eu fazia.

Derramei bilhetes pela casa, derramei gérberas pela casa, derramei roupas pela casa.
Não tive outra prioridade senão sua felicidade, mesmo que isso custasse minha paz.
Briguei demais pela nossa relação. Cada nova separação era uma esperança que voltássemos melhor.
Eu lhe amei com os sentimentos bons e ruins. Eu lhe amei com minha fé. Eu lhe amei com minha dor. Eu lhe amei com os meus traumas. Eu lhe amei com meus dramas. Eu lhe amei com minha amizade. Eu lhe amei com meu ciúme.

Todas as vezes em que me senti injustiçado, lhe ofendi para ver se recebia seu perdão.
Todas as vezes em que acabei a relação, sonhava com seu retorno.
Quis ser indispensável mais do que justo.
Eu pedi desculpa, insisti, enlouqueci. Fui um idiota, um sábio, um obstinado, um ingênuo, um ridículo. Fui até eu mesmo. Fui um pássaro com asas de âncora: rastejava pelo ar.
Só desejava ser seu, só desejava que fosse minha.
Rezava para que a saudade viesse, imponderável, suplicante, definitiva.
Nunca pensei minha vida sem você. Mesmo o meu pior procurava estar casado com você.
Até o último momento, busquei desarmá-la com a emoção. O último gesto redimiria qualquer desavença. O último gesto seria a entrega irrestrita. Um sim sonoro seria suficiente para combater as negativas sussurradas por dentro.

Empenhei tantas metamorfoses que não lembro o que entreguei. Eu me adaptava, voltava atrás, recuava, regredia, fingia segurança, simulava racionalidade, parava de fazer brincadeiras.
Por você, combatia os amigos, o mundo, a família.
Aguentei seus surtos, seus sustos, suas agressões, suas humilhações, seu deboche, suas alternâncias, sua mudança de opinião, aguentei você me deixando plantado no restaurante, nos bares, na rua, aguentei seus gritos, suas unhas, seus dentes.

Não fugi de conversar. Nunca deixei de atender um telefonema, nunca desliguei em sua cara, nunca deixei uma mensagem sem resposta.

Até o último momento, até depois do último momento, demonstrei que amava.
Não disfarcei, não omiti o que sentia. Disse com todas as palavras e todos os silêncios, para não gerar dúvidas.
Você não entendeu que eu lhe amei bonito.

E meu amor bonito não é meu, é seu. Não ficou comigo. O amor não é uma propriedade de quem sente, é uma transferência total para quem é amado. Assim como uma carta é de quem lê, não de quem mandou.
Espero que você não tenha jogado fora.

Publicado no site Vida Breve
www.vidabreve.com

24/12/2014
Colunista de quarta-feira





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Fabrício Carpi Nejar, ou Fabricio Carpinejar...

...como passou a assinar em 1998 (Caxias do Sul, 23 de outubro de 1972) é um poeta, cronista e jornalista brasileiro!




Segundo Alcemar: É filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi. Após a separação dos pais, em 1981, passou a ser criado pela mãe.
Ingressou em 1990 no curso de jornalismo, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde formou-se em 1995. Pela mesma instituição tornou-se mestre em Literatura Brasileira, em 2002.
Lançou As solas do sol, em 1998. A partir desse momento une seus sobrenomes e passa a assinar: Carpinejar.
Em 2003 publicou, pela editora Companhia das Letras, a antologia Caixa de sapatos, que lhe conferiu notoriedade nacional.
Mantém o blog Consultório Poético no portal Globo.com.
Em 6 de março de 2012, estreou como apresentador do programa A Máquina, na TV Gazeta.
Desde maio de 2011 mantém a coluna que antes era ocupada por Moacyr Scliar no jornal Zero Hora.




Obras:
1998 - As solas do sol
2000 - Um terno de pássaros ao sul
2001 - Terceira sede
2002 - Biografia de uma árvore
2003 - Caixa de sapatos (antologia)
2004 - Cinco Marias
2004 - Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa (Série Paralelepípedos 2)
2005 - Como no céu/Livro de visitas
2006 - O Amor Esquece de Começar
2006 - Filhote de Cruz Credo
2006 - Meu filho, minha filha
2008 - Diário de um apaixonado - Sintomas de um bem incurável
2008 - Canalha
2009 - www.twitter.com/carpinejar
2010 - Mulher perdigueira
2010 - O menina grisalho
2011 - Borralheiro
2011 - A menina superdotada
2012 - Beleza Interior - Uma viagem poética pelo Rio Grande do Sul
2012 - Ai meu Deus, Ai meu Jesus
2012 - Bem-vindo - Histórias com as cidades de nomes mais bonitos e misteriosos do Brasil




Prêmios:
Prêmio Fernando Pessoa, da União Brasileira de Escritores (1998)
Prêmio Destaque Literário da 46º Feira do Livro de Porto Alegre (2000)
Prêmio Açorianos de Literatura (2001)
Prêmio Marengo D’Oro – Itália (2001)
Prêmio Cecília Meireles, da União Brasileira de Escritores (2002)
Prêmio Açorianos de Literatura (2002)
Prêmio Nacional Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras (2003) 3
Prêmio Jabuti (2009) 4

https://twitter.com/carpinejar
carpinejar.blogspot.com

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"Uma relação nem sempre termina pq não é feliz...
Às vezes termina para preservar a felicidade da memória!"
Fabrício Carpinejar




 

 


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Lançamento nacional dia 27 de setembro

 

 


O TEMPO E O VENTO ESTREIA EM 20 DE
SETEMBRO NOS CINEMAS



Thiago Lacerda vive Capitão Rodrigo em O tempo e o vento
 
Foto:Jayme Monjardim/ DivulgaçãoA nova adaptação do clássico de Érico Veríssimo, com roteiro assinado por Leticia Wierzchowski e Tabajara Ruas, chega aos cinemas em 20 de setembro — data que marca o início da Revolução Farroupilha. Livremente adaptado deO Continente, primeiro tomo de O tempo e o vento, a produção dirigida por Jayme Monjardim se concentra na história de amor entre Bibiana (interpretada por Marjorie Estiano na juventude e por Fernanda Montenegro na maturidade) e o Capitão Rodrigo (vivido por Thiago Lacerda).

Sob o ponto de vista de duas famílias rivais, a Terra Cambará e a Amaral, o filme abrange um período de 150 anos, desde as Missões até o final do século XIX. O elenco ainda conta com Cléo Pires, Leonardo Machado, Fernanda Carvalho Leite, Janaína Kremer, Rafael Cardoso e Mayana Moura.
 
 


Em entrevista concedida ao blog da Intrínseca, Letícia Wierzchowski definiu O tempo e o vento como um livro seminal. “Aqui no Sul, então, nem se fala”, completa. “No começo deu um medo terrível. Mas eu precisei me apropriar da história, ter coragem de mudar coisas — não a essência —, ver coisas por um outro prisma para poder erguer o roteiro. Alguns vão gostar, outros não.”


Jayme Monjardim e Fernanda Montenegro nos bastidores das filmagens em Pelotas

Para a escritora gaúcha, cujo próximo romance será publicado em julho, foi fascinante dividir essa experiência com Tabajara Ruas, Jayme Monjardim e Thiago Lacerda. “Eu conheço o Jayme Monjardim desde A casa das sete mulheres, pois ele dirigiu a série. Jayme é um cara joia, que sabe tirar o melhor dos seus parceiros. E o Capitão Rodrigo é o Thiago Lacerda, amigo muito querido. Tem também a Vanessa Lóes, a Fernanda Montenegro, aquela deusa… Foi um trabalho incrível, e para mim, que sou escritora e, a priori, trabalho na solidão, é bom trocar ideias e ver gente de vez em quando.”

(Com informações do jornal Zero Hora.)

Leia também: Letícia Wierzchowski apresenta os personagens de Sal, seu próximo romance que será publicado em julho.
 

 
 
 
 








"Às vezes ouço passar o vento;
e só de ouvir o vento passar,
vale a pena ter nascido."Fernando Pessoa