Por DIEGO MÜLLER

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Escrever...

... e (re) escrever!!!



Nesse mês já bem passado de setembro, muita coisa se parou saudosista em meio a tanta correria e tantos compromissos, incluindo muitas músicas que há anos não ouvia, CDs que há tempos não revia, assim como músicas que marcaram um ciclo de amadurecimento e aprendizado musical, hoje impregnado em tudo que faço como pessoa e nos ramos em que atuo. Retornei há um mundo do qual nem notei ter me afastado, se somando ao quase encerramento do ano de 2014, onde os festivais terminam seus ciclos, num ano do qual nunca me esquecerei, com obras carinhosamente aplaudidas e abraçadas no palco dos mesmos. Assim, absorvendo tudo isso, em meio há muitas charlas e bate-papos, muitos assados e muitas noites de truco, alguns me perguntaram quando e como comecei a escrever, ou a tentar colocar idéias e passagens em forma de versos. Nunca parei para analisar todo esse processo, que vejo hoje como natural (e com naturalidade) e sempre em crescimento, mudança e amadurecimento.

Mas tentarei, acho, relatar e citar a todos...
...Até para ficar como registro!

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Vamos ver por onde começo (tentarei ser cronológico e detalhado)!...

Minha vida em casa sempre foi rodeada (maciçamente) de muito material sobre cultura, de muita cultura mesmo. Muito disco, muito livro, recortes de jornais, fitas de vídeo, fitas k7, e tudo mais que se possa imaginar. Meu pai sempre foi um rato de cultura, a ponto de emprestar e ceder muito de suas buscas e sua biblioteca até ao próprio Paixão Côrtes (amigo do qual temos, com muita honra e respeito), para complemento e "pesquisa" de suas pesquisas. Acho que ele (meu pai) teve uma barbara influência para essa busca de material com alguns dos antigos do CTG Brazão do Rio Grande de Canoas/RS, entidade que me viu nascer e me criou. Acho que o "Sr. Neco" tenha sido o maior influenciador, não sei bem... Mas Acredito! Eu brincava em meio a livros importantes e raros da nossa cultura, sem nem saber da importância deles (como as primeiras edições de Lendas do sul, de Simões Lopes Neto, primeiras edições dos livros de Aureliano de Figueiredo Pinto, versões variadas de Martim Fierro, capa de couro, capa de madeira, obras de Debred, Fernando Assunção, Carlos Vega, Berutti, Saubidet, livros autografados por Zeca Blau, Jayme Caetano Braun, Aparício, etc e etc). Muitas vezes acabei estragando livros importantes desses brincando de algo que nem me lembro o que era. Haha. Coisa de guri e de convívio normal com essas preciosidades. As tardes de sábado lá em casa, que eram dias de limpeza, eram regadas ao som Ernesto Montiel, Antonio Tarrago Rós, Coquimarola, Los Chalchaleros, Los fronteirizos, etc. Dos repertórios gaúchos se ouvia muito vinil, pois tínhamos muitos (cuidados até hoje): Variava entre Os mirins (antigos), Os serranos (antigos), Airton Pimentel, Mário Barbará Dornelles, Os posteiros, coletâneas de galpão crioulo, Gilberto Monteiro, dentre muito mais. Festivais também eram apreciados e colecionados: Califórnia (todos), Coxilha, Carijo, Reponte,Tertúlia, Primavera, todos da Vigilia e todos da Reculuta, dentre muito mais.

Escutava muitas histórias dos amigos mais próximos, que possuíam contato com grandes nomes do nosso gauchismo. Noel Guarany certa vez passou por canoas e parou no CTG Brazão do Rio Grande, na década de 70, mostrando um pouco de seu trabalho, cantando potro sem dono, na tentativa de buscar recursos para gravação de seus discos. Shows com Cenair Maicá foram realizados dentro dessa mesma entidade. Os fronteiriços, de Algacir Costa, Clari Costa (do Yamandu no colo), muito baile animou nesse mesmo galpão. Histórias dos muúripas em parceria com os maiores nomes do nosso nativismo, em festivais e shows. Tudo isso se acumulava cheio de glamour em meu pensamento de piá. Quase fantasia!

Paralelo a isso, inevitável de aceitar que os concursos e os CTGs, e seu meio de danças, tenham me aproximado de pessoas e de grupos das quais me mostraram rumos coerentes com toda cultura que eu tive sempre em casa - identificação. O Fegart, em Farroupilha, sempre me mostrou muita coisa diferente da qual sempre via em canoas mesmo, com muita cultura e manifestações tantas. Nas épocas de 92, 93 e 94, por exemplo. Ou o Fecart catarinense de 94. Os grupos do Rui Arruda Antunes (e de seus irmãos Mario Arruda, Carla Arruda, Carlos Arruda... e do amigo e mestre Ramiro Amorim). Assim como os rodeios de Araranguá 95, e tanto mais. Os livros de danças e versos para danças eram constantes lá em casa, onde consultava seguido para leitura pessoal e cultural própria. O auge disso tudo foi em 96, creio, onde numa ida ao rodeio internacional de Vacaria me deparei com grupos de danças referências, dos quais sempre imaginei assistir e assimilar. Me recordo do entusiasmo de guri de 15 anos assistindo aquele evento todo, chula, dança, declamação, canto, shows, etc... Muita gente gaúcha. E no meio dos concursos de danças, vendo esses grupos referências, escutar quadrinhas que nunca tinha escutado, porém com um sentido e uma roupagem folclórica de muito e total valor. Aquilo sim mexeu comigo... E numa estranheza bárbara de saber porque nunca havia visto antes aquelas quadrinhas inéditas (para mim e talvez para todos do evento). Estranheza, pois, a maioria dos livros de danças que possa imaginar e de quadras eu tinha e não prestava tanta atenção assim, talvez... Não sei! Não sabia bem! Eram versos de tatus, cana verdes, chamarritas, pau de fitas, etc e etc. Muita coisa nova, nunca antes assimilada, onde os grupos faziam questão de colocar essas novidades em palco. Bom, Chegando em casa catei todos esses livros, ainda embalado pelo êxtase pôs vacaria, juntei um a um em meu quarto. Revirei todos, li todos... E resolvi fazer uma coleção (com apenas 15 anos) a estilo "cancioneiro guasca" e "cancioneiro gaúcho", de todas essas trovinhas populares e folclóricas. Ao todo formaram uma junção de 2000 para mais... Que aumentavam a cada dia, de maneira muito espontânea. Juntei em 3 livros separados, escritos e catalogados a mão... E foram tantas danças e temas: tiranas, queromanas, chamarritas, rancheiras de carreirinha, além das mais conhecidas. Haviam as inéditas também, como a cachaça, o fumo, serrana, pinheiro, etc e etc. Muita coisa! Ícaro Aquino acompanhou um tanto dessa época, e muito estranhou os CDs que passava para fita k7 em sua casa, haha (o que depois virou um grande e importante site pioneiro de divulgação importante da nossa música).

Nesse mesmo ano (1996) Canoas abraçou o seu primeiro festival de musicas. A canoa do canto nativo, com participação de muitos nomes clássicos da época dos festivais. Os maiores nomes daquela década estavam em canoas, cruzando nos bastidores e nos camarins do qual eu também cruzava (por ter meus pais e tios trabalhando e ajudando na organização do mesmo evento). Pia de 15 anos conhecendo de perto cada artista e suas peculiaridades: Passarinho, Paim, Mano Lima, Luiz Carlos Borges, Daniel Torres, Lucio Yanel, Gilberto, dentre tantos mais. Mais uma experiência a mostrar um local mágico do qual sempre almejei chegar a partir disso. Na época lugar impossível... Mas sonho!

Nessa época ia, uma vez por ano, a casa dos meus padrinhos Celso Costa e Sonia India Soares DA Costa, em Santo Antônio da Patrulha, onde via e me encantava com as guitarradas crioulas do celso, cantando temas folclóricos, como rancheiras recolhidas do folclore e muito mais coisas que também não imaginava. Me recordo de uma das noites tocando: menina, casa comigo... De uma maneira diferente da qual eu conhecia, diferente da versão pesquisada por João Sampaio e musicada por Pedro Ortaça. Voltando de lá, já somado ao que assimilei dos versos recolhidos, nasceu em uma noite de sábado um tema (pela primeira vez pra mim) criado de minha lavra dentro do meu quarto... Era uma letrinhas simples e singela, a estilo "menina casa comigo" que citei! Pena que se perdeu no tempo, mas me recordo que tinha imagem e roupagem tão folclórica quanto as 2000 quadrinhas populares das quais juntei com o tempo. Nessa época estudava no primeiro ano do segundo grau, na escola cristo redentor, de canoas... E numa das aulas de segunda-feira de manha me deparei distante da aula, escrevendo uns versos sobre o vento... Inspirado em letras específicas do Jayme Caetano Braun! A letra essa já se parou feia, pois tinha roupagem mais "festivaleiro" e não tão ingênua e folclórica como a anterior! Mas para aprendizado, acho que valeu e muito! Tema esse que também se perdeu no tempo! Pena!

Bom, voltando às influências...
Um dos meus amigos (conservados até hoje), muito identificado com a cultura gaúcha, ia seguido para a serra gaúcha, em Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Antônio Prado e Farroupilha, da qual convivia com pessoas iluminadas do nosso gauchismo, da qual defendem a bandeira com guardiões de uma patria... E ensinam realmente os outros sobre essa bandeira levantada. Adriano Bruzza voltava da serra trazendo varias dicas e idéias sobre tudo o que era visão gaúcha das coisas! Certa feita revirando meu acervo de discos (do pai), acervo que sabia que existia mas nem tanto me importava em olhar com calma (pelo costume de te-lo sempre tão perto) ele buscou e se espantou com discos clássicos, da qual esses mesmos seus amigos serranos jamais conseguiram encontrar e idolatravam como relíquias do nosso cancioneiro (e eram mesmo): discos todos de Noel Guarany, todos de Cenair Maicá, todos de Pedro Ortaça, muita coisa de Jaime Caetano Braun, o primeiro disco de Luiz Marenco (cantando Jayme), Chaloy Jara, Dedé Cunha, Reduzino Maluquias, e assim por diante. No primeiro momento não entendi tanto o espanto dele... Mas com o tempo óbvio que eu mesmo fui me apavorando. Nas suas tentativas de passar todos aquele material para cassete, me animava também e realizava as mesmas cópias. Muito do que hoje faço e escrevo me vem desse momento, que ainda guardo em minha visão, como se fosse hoje! Muito mareamos eu, Adriano e oMarcelo Wolf (Benvindo) assimilando essas "novidades" para nós!

Nessa mesma época meu quarto era quase que um galpão estancieiro, uma extensão da casa grande, onde eu trabalhava (empolgado, como sempre, com as coisas de grupos de danças e seus acessórios) com couro, tentos e loucas... Nada de guasqueiro, muitíssimo longe disso. Realizava na verdade as feições de tentos para atar esporas, coldres para guaiacas, barbicachos crus para chapéus, algum incremento para bainhas e facas, e tudo mais. O "olor" de couro e de cebo era instigaste e me deixou marcas até hoje de nostalgia e gauchismo, da qual não sei se entenderão ou se eu consigo explicar. Fórmula tempo que me ensinou demais. O som desse quarto era regado a toca fita, onde ia para casas de amigos e passava todos aqueles discos citados anteriormente para fita cassete, e escutava nas noites pós aula. Noel Guarany sempre era o preferido. Sempre o que mais me emocionava. Em segundo lugar Luiz Marenco. E assim me revezava. Um pouco depois, veio o cd... E compramos alguns que iam saindo nas lojas, como primeiros exemplares de uma cultura que estava ganhando nova mídia e novo mercado. Não possuía aparelho de cd, apenas os discos. Então nova,ente ia eu para a casa dos amigos realizar a cópia deles para fitas magnéticas... E Te hoje lembro dos primeiros CDs comprados e escutados. Todos eles marcaram na feição da cultura musical que hoje agrego: Jorge Guedes (o primeiro individual), Joca Martins, Xucro ofício (o que mais gosto desse cantor), Calogornia da canção nativa (contendo o clássico e perfeito tema: GAÚCHO, do Jayme e do Talo Pereyra, cantado pelo Guedes), Luiz Marenco, em De a cavalo, Pedro Ortaça (o primeiro com os filhos), Cenair Maicá (caminhos) e Troncos Missioneiros. Esses foram os discos que mais me marcaram. Com o tempo vieram outros tantos e mais. Mas esses foram os primeiros! E se repetiram tantas vezes!

Com o tempo fui me interessando pela leitura de poemas e no descobrimento maior e não tão superficial em Jayme Caetano Braun, Aparício silva Rillo e Aureliano de Figueiredo Pinto. Tinha em casa todos os livros deles, incluindo algumas edições autografadas pelos mesmos. Vejam só! E nesse meio tempo descobri (nos CDs e nos discos) João Sampaio, José João Sampaio da Silva... Nome do qual me passava um enorme folclore só em lê-lo! Identificava nesse nome e em suas obras uma força e um tempo muito antigo e singelo ainda permanente em suas escritas, pois era e sempre foi o mais fértil dos poetas do RS. Resolvi então escrever umas coisas... Coisas de principiante... E escrever ao Sampaio, em Itaqui, para saber de seu aval sobre o que tinha posto no papel, e em de repente ter umas parceiras com esse mestre, totalmente despretensiosas. Queria muito conhecer e saber de alguma parceria com o parceiro de Noel Guarany, Pedro Ortaça, Jorge Guedes e Luiz Marenco. Mandei uma carta... Com 8 poemas, e o meu desejo de escrever, de lambuja junto. Estava no banho e não é que o dito me liga!? Sai correndo para atender e o mesmo me recita dois dos poemas já prontos em parceria!... nem esperava! Minha emoção foi enorme, coisa de guri! Imaginem! Ele agradeceu e disse que seria um prazer a parceria,me que na mesma semana enviava os mesmos 8 poemas prontos e digitados. E enviou. Imagina minha satisfação! O primeiro poema da parceira já tinha sido enviada e musicada pelo Walther Morais (hoje canoense), do qual admirada desde a época dos Serranos, com alguns temas clássicos da qual todos ouviam. E assim me animei e segui escrevendo! Essa parceria com o Sampaio se perpetuou e rendeu em torno de 400 temas, mais ou menos (nunca contados precisamente)... Todas muito ricas em folclore e cheiro de terra! Me orgulho de cada uma e de tudo que aprendi e aprendo com ele, suas paisagens, seus lugares, seus professores e seus pensamentos! Muito de minha poesia é causa dele e dedicada a ele!

Quis mais... e segui a frequentar cada festival do qual podia ir... nunca assistia as músicas. As mesmas escutava a posterior nos CDs ou nas rádios (quando ainda aviam rádios com programas de festivais). Ficava nos bastidores... falava, escutava, cuidava, olhava, aprendia... e muito me fiz dessas charlas! Conheci cada canto do Rio Grande... Itaqui, São Borja, Uruguaiana, Santa Rosa, Jaguarão, Livramento, Bagé, Aceguá, Rio Grande, Sãi Luiz Gonzaga, Maçambará, Mbororé, Santiago, Jaguari, Santa Maria, Tupãnciretã, fronteira, missões, serra, litoral, centro... conheci bolichos... canchas de carreira... taperas.... estâncias... chácaras... granjas... carreteras... corredores... rinhadeiros... pesqueiros... rios... campos... casarões... italianos... alemães... polakos... crioulos... mastiços... guaranys... almas charruas... castelhanos... chibeiros... contrabandistas... músicos... declamadores... carreteiros.... e tudo mais que esses interiores podem nos acrescentar! Olhei e cuidei cada um... assimilei muito de Rio Grande e muito de nossa gente!

Com o tempo ainda andando conheci e realizei o sonho de ter parceiros com todos os meus mestres e com quase todos os que escutava quando era pia... guarde a amizade de todos como grandiosos regalos e eternos aprendizados: Pedro Ortaça, Jorge Guedes, Valdomiro Maica, João Sampaio, Rodrigo Bauer, Joca Martins e tantos mais. Outros conheci na estrada e se tornaram grandes e preciosos parceiros e amigos, dos quais só lamento a distância para mates mais constantes e regados de aprendizados: Martim César, Érlon Péricles, Cristiano Quevedo, Leonardo Borges, SGoulart Muller, Robledo Martins, Edilberto Bérgamo, Cristiano Fantinel, Halber Lopes, Binho Pires, Everson Maré Silveira, Oscar Massitta, Alessandro Gonçalves, Paulo Timm, Piero Ereno, Raineri Spohr,Marcelo De Araújo Nunes, Ricardo Comassetto, e tantos mais!

E assim fui indo. E assim estou indo!...
...sem querer ser artista (minha profissão é outra), sem querer ser mai que ninguém, sem pretensões de "livros" ou "cds" como troféus maiores da minha "obra"... da qual fala muito de mim e muito de cada coisa que olhei e que tenho como valores!

Ainda nesse meio encontramos e sempre encontraremos pessoas iluminadas das quais também damos algumas simples dicas, que abrem porteiras para subir cada vez mais nesse ramo musical e compositor... Como o caso do amigo Filipe Calvete Corso, que pra mim tem sido uma das mais agradáveis e gaúchas surpresas dos festivais atuais (assim como seu irmão Henrique Corso). Muitos outros assumi a parceria e levei por diante, para vê-los felizes com suas obras, e pra ver se lidam melhor com seus talentos, como Maurão Augusto Cenci, Alex Cabral, Mauricio Nunes, e alguns outros amigos, dos quais sempre os quero bem!

Fico feliz pelo meu "dom" e pelo trabalho e suor que coloco em cima dele. Sempre fui muito difícil para mim escrever e dizer em forma de verso com qualidade tudo o que penso. Sou capricorniano, quieto, fechado, observador... escuto mais do que falo... o que se torna inevitável a necessidade da palavra escrita para falar de mim! Aprendi isso! Por isso do meu estremo orgulho e do meu modo de divulgação do que realizo. Vaidade quanto as obras, não tenho... Orgulho, sim: são filhos dos quais olho sempre, escuto, leio e divulgo aos que conheço e me conhecem!



Bandeiras levanto...
...E sempre erguerei!

"Há braços" aos amigos...
...e sigam com seus Valores!

E que 2015 seja cada vez mais repleto de luz, cultura e de pessoas boas!

Diego Müller de sempre!!!

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"Eu não escrevo em português... Escrevo eu mesmo!!!"
Fernando Pessoa

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Pássaro com asas de âncora...

...por Fabrício Carpinejar



Posso jogar fora nossas fotografias, posso jogar fora poemas, posso jogar fora nossos objetos em comum, posso jogar fora nossos lugares prediletos, posso jogar fora nosso dialeto, posso jogar fora nossos rituais, posso jogar fora, acredite, posso jogar, mas não consigo jogar fora o jeito bonito que lhe amei. Olho para o meu amor por você e não consigo descartar. O meu amor por você era tão bonito.
Eu lhe amei como nunca amei ninguém. Como apagar, como esquecer, como fingir que não faz parte de mim?
Eu lhe amei com toda a minha devoção, antecipava voos para ganhar alguns minutos ao seu lado. Eu lhe amei com todas as surpresas que poderia inventar. Eu modificava minha agenda para lhe oferecer carona. Eu não reclamava de me acordar antes para preparar seu café. Você pedia, eu fazia. Você balbuciava, eu fazia. Você duvidava, eu fazia.

Derramei bilhetes pela casa, derramei gérberas pela casa, derramei roupas pela casa.
Não tive outra prioridade senão sua felicidade, mesmo que isso custasse minha paz.
Briguei demais pela nossa relação. Cada nova separação era uma esperança que voltássemos melhor.
Eu lhe amei com os sentimentos bons e ruins. Eu lhe amei com minha fé. Eu lhe amei com minha dor. Eu lhe amei com os meus traumas. Eu lhe amei com meus dramas. Eu lhe amei com minha amizade. Eu lhe amei com meu ciúme.

Todas as vezes em que me senti injustiçado, lhe ofendi para ver se recebia seu perdão.
Todas as vezes em que acabei a relação, sonhava com seu retorno.
Quis ser indispensável mais do que justo.
Eu pedi desculpa, insisti, enlouqueci. Fui um idiota, um sábio, um obstinado, um ingênuo, um ridículo. Fui até eu mesmo. Fui um pássaro com asas de âncora: rastejava pelo ar.
Só desejava ser seu, só desejava que fosse minha.
Rezava para que a saudade viesse, imponderável, suplicante, definitiva.
Nunca pensei minha vida sem você. Mesmo o meu pior procurava estar casado com você.
Até o último momento, busquei desarmá-la com a emoção. O último gesto redimiria qualquer desavença. O último gesto seria a entrega irrestrita. Um sim sonoro seria suficiente para combater as negativas sussurradas por dentro.

Empenhei tantas metamorfoses que não lembro o que entreguei. Eu me adaptava, voltava atrás, recuava, regredia, fingia segurança, simulava racionalidade, parava de fazer brincadeiras.
Por você, combatia os amigos, o mundo, a família.
Aguentei seus surtos, seus sustos, suas agressões, suas humilhações, seu deboche, suas alternâncias, sua mudança de opinião, aguentei você me deixando plantado no restaurante, nos bares, na rua, aguentei seus gritos, suas unhas, seus dentes.

Não fugi de conversar. Nunca deixei de atender um telefonema, nunca desliguei em sua cara, nunca deixei uma mensagem sem resposta.

Até o último momento, até depois do último momento, demonstrei que amava.
Não disfarcei, não omiti o que sentia. Disse com todas as palavras e todos os silêncios, para não gerar dúvidas.
Você não entendeu que eu lhe amei bonito.

E meu amor bonito não é meu, é seu. Não ficou comigo. O amor não é uma propriedade de quem sente, é uma transferência total para quem é amado. Assim como uma carta é de quem lê, não de quem mandou.
Espero que você não tenha jogado fora.

Publicado no site Vida Breve
www.vidabreve.com

24/12/2014
Colunista de quarta-feira





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Fabrício Carpi Nejar, ou Fabricio Carpinejar...

...como passou a assinar em 1998 (Caxias do Sul, 23 de outubro de 1972) é um poeta, cronista e jornalista brasileiro!




Segundo Alcemar: É filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi. Após a separação dos pais, em 1981, passou a ser criado pela mãe.
Ingressou em 1990 no curso de jornalismo, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde formou-se em 1995. Pela mesma instituição tornou-se mestre em Literatura Brasileira, em 2002.
Lançou As solas do sol, em 1998. A partir desse momento une seus sobrenomes e passa a assinar: Carpinejar.
Em 2003 publicou, pela editora Companhia das Letras, a antologia Caixa de sapatos, que lhe conferiu notoriedade nacional.
Mantém o blog Consultório Poético no portal Globo.com.
Em 6 de março de 2012, estreou como apresentador do programa A Máquina, na TV Gazeta.
Desde maio de 2011 mantém a coluna que antes era ocupada por Moacyr Scliar no jornal Zero Hora.




Obras:
1998 - As solas do sol
2000 - Um terno de pássaros ao sul
2001 - Terceira sede
2002 - Biografia de uma árvore
2003 - Caixa de sapatos (antologia)
2004 - Cinco Marias
2004 - Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa (Série Paralelepípedos 2)
2005 - Como no céu/Livro de visitas
2006 - O Amor Esquece de Começar
2006 - Filhote de Cruz Credo
2006 - Meu filho, minha filha
2008 - Diário de um apaixonado - Sintomas de um bem incurável
2008 - Canalha
2009 - www.twitter.com/carpinejar
2010 - Mulher perdigueira
2010 - O menina grisalho
2011 - Borralheiro
2011 - A menina superdotada
2012 - Beleza Interior - Uma viagem poética pelo Rio Grande do Sul
2012 - Ai meu Deus, Ai meu Jesus
2012 - Bem-vindo - Histórias com as cidades de nomes mais bonitos e misteriosos do Brasil




Prêmios:
Prêmio Fernando Pessoa, da União Brasileira de Escritores (1998)
Prêmio Destaque Literário da 46º Feira do Livro de Porto Alegre (2000)
Prêmio Açorianos de Literatura (2001)
Prêmio Marengo D’Oro – Itália (2001)
Prêmio Cecília Meireles, da União Brasileira de Escritores (2002)
Prêmio Açorianos de Literatura (2002)
Prêmio Nacional Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras (2003) 3
Prêmio Jabuti (2009) 4

https://twitter.com/carpinejar
carpinejar.blogspot.com

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"Uma relação nem sempre termina pq não é feliz...
Às vezes termina para preservar a felicidade da memória!"
Fabrício Carpinejar




 

 


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Lançamento nacional dia 27 de setembro

 

 


O TEMPO E O VENTO ESTREIA EM 20 DE
SETEMBRO NOS CINEMAS



Thiago Lacerda vive Capitão Rodrigo em O tempo e o vento
 
Foto:Jayme Monjardim/ DivulgaçãoA nova adaptação do clássico de Érico Veríssimo, com roteiro assinado por Leticia Wierzchowski e Tabajara Ruas, chega aos cinemas em 20 de setembro — data que marca o início da Revolução Farroupilha. Livremente adaptado deO Continente, primeiro tomo de O tempo e o vento, a produção dirigida por Jayme Monjardim se concentra na história de amor entre Bibiana (interpretada por Marjorie Estiano na juventude e por Fernanda Montenegro na maturidade) e o Capitão Rodrigo (vivido por Thiago Lacerda).

Sob o ponto de vista de duas famílias rivais, a Terra Cambará e a Amaral, o filme abrange um período de 150 anos, desde as Missões até o final do século XIX. O elenco ainda conta com Cléo Pires, Leonardo Machado, Fernanda Carvalho Leite, Janaína Kremer, Rafael Cardoso e Mayana Moura.
 
 


Em entrevista concedida ao blog da Intrínseca, Letícia Wierzchowski definiu O tempo e o vento como um livro seminal. “Aqui no Sul, então, nem se fala”, completa. “No começo deu um medo terrível. Mas eu precisei me apropriar da história, ter coragem de mudar coisas — não a essência —, ver coisas por um outro prisma para poder erguer o roteiro. Alguns vão gostar, outros não.”


Jayme Monjardim e Fernanda Montenegro nos bastidores das filmagens em Pelotas

Para a escritora gaúcha, cujo próximo romance será publicado em julho, foi fascinante dividir essa experiência com Tabajara Ruas, Jayme Monjardim e Thiago Lacerda. “Eu conheço o Jayme Monjardim desde A casa das sete mulheres, pois ele dirigiu a série. Jayme é um cara joia, que sabe tirar o melhor dos seus parceiros. E o Capitão Rodrigo é o Thiago Lacerda, amigo muito querido. Tem também a Vanessa Lóes, a Fernanda Montenegro, aquela deusa… Foi um trabalho incrível, e para mim, que sou escritora e, a priori, trabalho na solidão, é bom trocar ideias e ver gente de vez em quando.”

(Com informações do jornal Zero Hora.)

Leia também: Letícia Wierzchowski apresenta os personagens de Sal, seu próximo romance que será publicado em julho.
 

 
 
 
 








"Às vezes ouço passar o vento;
e só de ouvir o vento passar,
vale a pena ter nascido."Fernando Pessoa
 
 
 

domingo, 14 de abril de 2013

O coração da minha gente...

...em CD!!!
 

Gurizada...

Como disse, após a pascoa, as novidades estão no ar e chegando!
Venho faceiro contar a todos, pois a hora é agora:

Repertório pronto e tudo em fase de finalização para o CD "CORAÇÃO DA MINHA GENTE", abrindo meus trabalhos fonográficos (já com mais projetos no forno), esse na parceria com o grande irmão e parceiro de sempre, Érlon Péricles. Faz horas que a peleia por esse registro vem acontecendo... e agora tudo se encaminhou, e se Deus quiser que tudo dê certo, até o fim de Maio ou início de junho as cópias já estarão na rua para os amigos, para os apreciadores da boa música e principalmente para o "Coração da minha gente", com temas de sotaque nascido da terra vermelha, brotado dos galpões de chão batido e batizados nas águas dos nossos rios guaranis, beirando selvas antigas e ainda vivas... tudo com a simplicidade do nosso interior e com a gana que os nossos anteriores possuíam!
 

(Crédito para as fotos, locadas nas Barrancas do Rio Uruguai durante o Festival da Barranca-2013, do grande Emílio Pedroso e assessoria de Roger Lerina - diretamente da Zero Hora para o mundo).
 
 

CD CORAÇÃO DA MINHA GENTE
- Diego Müller e Érlon Péricles -
(gravações originais)

01- Namoro de gato (L: Diego Müller/João Sampaio/M: Érlon Péricles)
Vaneira – Érlon Péricles
02- Desnucando a oito-soco (L: Diego Müller/Binho Pires/M: Érlon Péricles II)
Vaneira – Érlon Péricles
03- Entre el río y el arenal (L: Diego Müller/João Sampaio/M: Érlon Péricles)
Chamamé – Shana Muller
04- Ranchito (L: Diego Müller/João Sampaio/ M: Érlon Péricles)
Valseado – Angelo Franco
05- Na moda do Reduzino (L: Diego Müller/João Sampaio/M: Elton Saldanha/Érlon Péricles)
Chamarra – Érlon Péricles
06- Cajoneando (L: Diego Müller/João Sampaio/M: Érlon Péricles)
Candombe – Érlon Péricles e Pirisca Grecco
07- Do Passo ao Rincão da Raia (L: Diego Müller/M: Érlon Péricles)
Queromana tropeira – Érlon Péricles
08- Do cimo da serra (L: Diego Müller/João Sampaio/M: Érlon Péricles)
Chamarra – Érlon Péricles
09- Com a cordeona nas mãos (L: Diego Müller/João Sampaio/M: Érlon Péricles)
Chamamé – Érlon Péricles
10- Loco véio (L: Diego Müller/Binho Pires/M: Érlon Péricles)
Chote – Ita Cunha
11- De la raza chamamecera (L: Diego Müller/João Sampaio/M: Elton Saldanha/Érlon Péricles)
Chamamé – Daniel Torres
12- Olarai do litoral (L: Diego Müller/João Sampaio/M: Caio Martinez/Érlon Péricles)
Olarai – Caio Martinez
13- Sentinela do rincão (L: Diego Müller/Binho Pires/M: Érlon Péricles)
Milonga – Érlon Péricles
14- Coração da minha gente (L: Diego Müller/João Sampaio/M: Érlon Péricles)
Chamarra – Ângelo Franco

Abraço a todos e um ótimo início de semana!
 
 
 
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"Eu que tô na estrada – e sou dela apenas – não colhi suas flores, mas trouxe os espinhos... Porque o tempo passa – sem pedir permisso – se o fiador é a cerca... girando caminhos! E eu que tenho tanto pra saber, te falo que às vezes penso que sabia tudo... Preciso buscar o tudo que me espera bem além da estrada, lá no fim do mundo!!!..."
(Diego Müller e Vasco Velleda)
 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

7 pecados...

...o trabalho!
 
(Foto: Rogério Villagran)
 
 
01- Pra quem anda irado:
indico Trabalho!... e um pouco de calma!

02- Pra quem anda orgulhoso:
indico Trabalho! ...e humildade para ver o quanto os outros também merecem!

03- Pra quem anda preguiçoso:
indico Trabalho! ...e disposição!

04- Pra quem anda em luxurioso:
indico Trabalho! ...e um pouco de inocência!

05- Pra quem anda cobiçoso:
indico Trabalho! ...e algo de generosidade!

06- Pra quem anda guloso:
indico Trabalho! ...e um tanto de temperança!

07- Pra quem anda invejoso:
indico Trabalho! ...e muito de gratidão!

E, de lambuja,
 
08- Pra quem anda vicioso:
indico Trabalho! ...e amor por si mesmo!

Você realmente se acha iluminado?
Alguém que enfrentou e suportou realmente todos os seus medos?
Sabe observar e tem a capacidade de avaliar os erros e onde as pessoas deveriam acertar?
Porquê não usar essa habilidade então para auxiliá-las, corrigi-las, indicá-las a caminhos, ser um educador...
ao contrário de simplesmente avaliar?
Iluminados e evoluídos auxiliam... ensinam!

#Souparceiro!!!

Assim:
trabalhe, que, no más...
é tentar ser uma pessoa boa!
 
 
- X - X - X - X - X -
 

"Além do lance dramático, cultural e religioso, acho que esta época do ano induz a um estado meditativo quase melancólico. Quem conhece o outono porto-alegrense sabe a que me refiro!"
(Humberto Gessinger)
 

terça-feira, 2 de abril de 2013

A barranca...


 ...e seus campeões!!!
 

Para um grupo abençoado de convidados, a Semana Santa é sagrada também por outra razão: é durante esses quatro dias que se realiza o Festival da Barranca, em um acampamento à beira do rio Uruguai, a 13 quilômetros de São Borja. Faltar a esse comício de espíritos é pecado de lesa-gauchismo.

A 42ª edição do festival regionalista há mais tempo em atividade sem interrupção reuniu cerca de 300 pessoas, celebrando a temática da descendência em canto e verso.

Entre os dias 28 e 31 de março, o encontro de músicos e apreciadores da música, da cultura e da vida campeiras evocou a alma que há cinco décadas animou um punhado de amigos à beira do rio a passar alguns dias à base de pesca e alguma música. Como se cantava mais do que se pescava, em 1972 a pescaria acabou se transformando em festival graças à iniciativa de figuras como Apparicio Silva Rillo, José Lewis Bicca, Carlos Castilhos e Antonio Augusto Fagundes – presente na edição deste ano, Nico Fagundes venceu a primeira Barranca com a música Eu e o Rio.
 

O Festival da Barranca tem suas peculiaridades: mulher não pisa no acampamento, entra apenas quem é convidado por algum anguera, e dinheiro só vale se for manduca – homenagem ao pioneiro Tio Manduca, a moeda é estável, e o câmbio tem paridade com o real. Outro diferencial é que os concorrentes têm menos de 24 horas para compor suas canções – o tema é anunciado no começo da noite da Sexta-Feira Santa e, no sábado, os músicos têm que defender as obras.
 

Neste ano, o mote proposto foi "descendência" – 30 canções foram inscritas, sendo 27 apresentadas no palco montado sob um galpão. A vencedora foi Semente, interpretada pelo cantor, compositor e violonista Mário Barbará, veterano de 27 edições de Barranca, e pelo violonista Apparicio Silva Rillo Neto (confira a lista de vencedores ao lado). Como nas tertúlias que se realizam espontaneamente nos quatro dias entre as barracas e no palco, a gincana para compor um tema em apenas um dia promove parcerias que ultrapassam diferenças de idade, de estilo e de origem. Calejados barranqueiros como o cantor, compositor e gaiteiro Luiz Carlos Borges – detentor do recorde de 37 horas tocando sem parar em uma edição passada do festival – e o fenômeno do violão Yamandu Costa tocaram na cidade de lona ao lado de novatos como o músico argentino Pablo Grinjot.
 

– Isto aqui é uma coisa inacreditável – disse o portenho, entusiasmado com o Woodstock gaudério.

Já definida pelo compositor e poeta Sergio "Jacaré" Metz como "um comício de espíritos", a Barranca segue fiel à ideia congregadora de seus fundadores.

– Foi uma das melhores edições dos últimos anos, em que as pessoas puderam estar mais próximas do abraço. Foi uma Barranca mais humana – resumiu o anguera Marco Antônio Loguércio.
 

Os vencedores:

> Troféu Apparicio Silva Rillo (primeiro lugar) e Troféu Sergio "Jacaré" Metz (melhor letra): Semente, de José Fernando Gonzalez e Mário Barbará
> Segundo lugar: Outros no Mesmo Lugar, de Rafael Ovídio, Zelito Ramos e Pirisca Grecco
> Terceiro lugar: Los Mesmos, de Carlos Cachoeira e Chicão Dornelles
> Troféu Quá Quá (música humorística): De Sepé Até a Barranca, de Elton Saldanha, Tadeu Martins e José Atanásio Borges Pinto


 
 
 
 
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"Se o que eu sou é também
o que eu escolhi ser, aceito a condição
!"
(Los Hermanos)

 

domingo, 31 de março de 2013

Semana santa...


...e o 42º Festival da Barranca



Começa nesta quinta-feira, 28 de Março, mais uma edição do tradicional Festival da Barranca. Organizado pelo Grupo Amador de Arte Os Angüeras, o evento acontece todo o ano, no período pascal. Apenas homens participam. Rodeados de violões, bombos leguero e muito churrasco, os músicos recebem o tema anual no Festival na quinta-feira à noite, tem toda a seta-feira para compor e musicar suas músicas. A apresentação é no sábado, para a avaliação dos jurados.



A estrutura para o evento, que acontece nas margens do Rio Uruguai, já está montada. Serão aproximadamente trezentos músicos reunidos, com destaque para as presenças de Yamandú Costa, Érlon Péricles e Luis Carlos Borges, que está completando cinquenta anos de carreira.


Em 2012, com os versos “…A estação ali na frente, Galponeira, sim senhor, Fogo grande hospitaleiro, Com mate e computador…”, a canção “Na Estação ali na Frente”, de Pirisca Grecco, Miguel Tejera e Tadeu Martins, levou o primeiro lugar do Festival da Barranca.

O Festival na História


O festival da Barranca foi criado pelo grupo Os Angüeras – Grupo Amador de Arte, de São Borja. Conforme o histórico disponibilizado em seu site, o grupo foi fundado em 10 de março de 1962, com atuação permanente nos campos da música, do teatro, da literatura regional e da pesquisa de folclore, o Os Angüeras – Grupo Amador de Arte, surgiu a partir do Departamento Cultural do chamado “Clube dos Dez” – grupo de amigos que se reuniam, periodicamente. Os fundadores foram Apparício e Suzy Rillo, Carlos e Maria Moreno, José e Magda Bicca, Sady Santiago e sua noiva Ana Rosa, Darwey e Mariazinha Orengo, Telmo de Lima Freitas e Vicente Goulart.


“O nome foi escolhido a partir da sugestão do poeta e historiador Apparício Silva Rillo. De origem Guarani, “Angüera” significa “espírito que volta” ou “alma que se devolve ao corpo”, um pouco estranho a primeira vista, mas, logo, compreensível, pois o “Angüera” antes triste e caladão, virou cantador e tocador de viola, depois que os padres das Missões o batizaram e lhe deram o nome de Generoso e, assim, na mitologia missioneira “Angüera” pode ser considerado o patrono da música e da alegria gaúcha.”

(Carlos Cachoeira, Diego Müller, Olívio Dutra e Paulinho Cardoso)

Por Fábio Giacomelli

Fotos e informações:

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Correria boa de abril e maio...
E vamos trabalhando!!!

XI Canto Missioneiro - Santo Ângelo/RS
15, 16 e 17 de março de 2013:
* LUNA MISIONERA - Chacarera
L: Diego Müller e João Sampaio/M: Ernesto Fagundes
* UN CHAMAMÉ Y NADA MÁS - Chamamé
L: Diego Müller/M: Marcelinho Nunes

XXI Sapecada da canção nativa - Lages/SC
24 e 25 de maio de 2013:
* FOLE FLORIADO - Chamamé
L: Diego Müller e Rodrigo Bauer/M: Edilberto Bérgamo
* FLOREANDO - Chote
L: Filipe Calvete Corso/M: Diego Müller

Suerte pa´ todos y pa´ nosotros!

Abração!

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"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás para atravessar o rio da vida – ninguém, exceto tu, só tu!"

segunda-feira, 25 de março de 2013

Um pouco de infância...

...e de dança!


Passei uma das semanas passadas toda (principio de semana) escutando vinil antigos dos quais me trouxeram vários sentimentos, porquês e lembranças. Isso associado e minha ida ao rodeio de caxias de 2013 (cidade que fazia um ano do qual não conseguia subir para rever meus amigos - e estava com saudade de todos), onde na volta conversei muito com meu colega de viagem, Arévalo Almeida (originário de um meio dito de enart), com o tema totalmente em cima das danças gaúchas e do nosso meio dito tradicionalista, onde esses fatos me inspiraram a estas palavras...

...Me recordo, em minha infância, da qual em vez de brincar de carrinhos, De skate, de futebol e tantas coisas comuns a uma pessoa comum (hehe), todas minhas diversões principais eram baseadas em coisas rurais e do meio da dança e do espetáculo gaúcho. Imitações de ensaios, de shows, construção de parque de rodeios, apresentações , gauchadas, tiros de laco, gineteadas e tudo mais... Chegando até a organizar regulamento de rodeios com minhas próprias normas e idéias. Coisa de criança viciada da qual viu isso a vida toda. E vez de escutar rock nacional e gaúcho, minha audição se resumia a passar os vinis de Noel Guarany, Paixão cortes e de Inézita Barroso para cassete onde eu podia os escutar em meu quarto, enquanto desquitava um tento para fazer crus barbicachos para meus chapéus, coldres para algum futuro revolver, bombas de taquapis, isqueiros de fuzil, passadores de chifres e bainhas para facas e facões. Nessa mesma época que levei os primeiros trabalhos de luiz Marenco, de jorge Guedes e Joca martins, além dos já clássicos temas de Noel Guarany, aos meus colegas de mirim, de juvenil e, a posterior, de um grupo adulto. Nem todos aceitavam esses fonógrafos, mas hoje certamente inserido em suas culturas musicais!
Minhas tardes, em vez de seção da tarde, eram animadas por fitas de videos do fegart 93, de farroupilha, onde eu sabia de cor as apresentações do Ctg os serranos, melhor grupo que já vi dançar, ensinado por meu mestre Rui arruda, imitando até os sapateiros, entradas, saídas e danças (queromaninha, fandango, gralha azul, etc e etc). Tempo clássico que não volta mais. Estava lá sentado assistindo e sei o quanto essa apresentação mudou minha vida! Isso por eu já ter vindo de um meio totalmente artístico: Comecei a caminhar vendo os ensaios do Tropeiros da tradição (antigo), dentro do próprio Brazão, convivi com Terson Praxedes, meu amigo, do qual sempre gosto de falar sobre dança e cultura! Vi o Eri Assenato dar aula de danças no Brazão, isso em 91. Frequentei pia os últimos mobrais, assisti o xarope a dançar sua famosa chula, ouvi causos sobre Norton Do Carmo (mago da dança), brincava na casa do Ronaldão, dançarino dos Muuripás... Tudo isso quando meus pais (tri campeões do estado) dançavam ainda nos primeiros eventos em farroupilha, onde, pra completar, tinha meu padrinho de nascimento Celso Luz da Costa (O Celsão), ex dançarino na época dos gaúchos, como instrutor desse grupo, dentre outros. Depois veio o fegart e eu sempre lá. Ultimo fegart e primeiros enarts dai como dançador de chula, tenteando implantar o que eu pensava (sem resultados, obvio)! 92 em vacaria acompanhei de perto toda a revolução que a dança teve, principalmente pelo livro da carta de vacaria ter sido organizado dentro do Brazão. Revolução essa vinda já do fenart 91, que hoje muitos se olvidam. Vi bem de perto o barbicacho e o minuano, seguido pelo porteira do mola e dos grupos do Ramiro, matando a pau. Não menosprezo os outros grupos e as outras escolas, mas somente esses mexeram comigo. Só esses me emocionaram e fizeram minha memoria. Vi bem como esse modo de dança entrou no rs e em nosso Ctg Brazão Do Rio Grande, e se outras pessoas quiserem mentir, nosso ctg tem memória e poderá desmentir a qualquer hora... Por isso forçamos os diretores da entidade, a posterior (98), a trazer um dos que criou esse modo de dançar (que nada mais era do que apenas seguir o que o Paixão dizia, e ainda diz), tendo como nosso instrutor o Rui Arruda Antunes, meu instrutor a 16 anos já... 

Não aprendi a usar bombacha, não nasci usando bombacha... Aprendi a saber de onde vem a bombacha e ainda mais quis vesti-lá depois de saber a historia que existe por traz dela. É um orgulho! Não uma fantasia e uma norma! É um relato de nações e povos! Isso em tudo!

Bom...
Essa foi minha infância, essas eram minhas brincadeiras. Hoje reestudei uns vinis do Paixão, e para surpresa sabia de cor todas as letras e musicas, clássicos que muitos contestam, mas deu ao Paixão o prêmio de melhor interprete de folclore do nosso país. Como seria diferente?... eu gostar de outra coisa, eu seguir outros rumos, defender outras bandeiras, militar por outras culturas e outros modos sociais de ver o povo? 
Como conseguir não estar a frente de grupos de danças, mostrando minha visão e aprendizado, e não estar defendendo os meus?
Como conseguir estar apartado do folk, não gostar do terrunho, do simples? Como não se arrepiar com o folclore?
Esse era meu destino e é... Na infância ele já se moldou assim, e não foi por acaso.
Em vez de ver livros de pintar e de colar, minhas leituras (leigas pra época) eram Fernando Assunção, Paixão Côrtes, Carlos Vega, Barbosa Lessa, Jayme Caetano Braúna, Rillo, aureliano, Zeca Blau, etc e etc. obvio, Paixão cortes sempre como leitura predileta. Como não aprender? 
Em vez de fazer temas de casa eu colecionava quadrinhas folclóricas antigas (desde livros e danças açorianas, argentinas, vindo até Simões Lopes Neto e Augusto Meyer). 
Não é por acaso que o próprio Paixão tem um respeito enorme por minha família e meu CTG de origem, tanto que em muitas oportunidades pude estar com ele, aprendendo, ensinando, jogando conversa fora e conhecendo as pessoas com que ele aprendeu tudo. Boas e eternas oportunidades das quais agradeço e retribuo da melhor maneira possível.
Hoje ainda tenho a dança como meu talento principal, porém divido meu gosto maior entre ela e a Musica, vindo também dessa mesma época... onde estar entre, ser amigo e ser parceiro de pessoa que jamais imaginei estar perto, é um motivo de estremo agradecimento e de aprendizado (principalmente aprendizado)! Meus temas falam de mim e de tudo que aprendi e vi (independente se vi ou aprendi pouco), junto a meus amigos rurais e os livros e culturas das quais absorvi. Tudo dos livros e vinis citados acima tentei ver "In loco", aprender e reescrever, devolvendo a um povo do qual não conhece e nem sabe de onde apareceu. As vezes me contestando e contestando as obras... Mas, paciência: a militância não é apenas de um dia e de uma obra... É de tempos até se chegar ao povo! Quase uma guerra!!!

Não me arrependo... 
Porém quando perguntam, quem é o Diego, quem é esse tal de Diego, tenho orgulho de dizer que tenho amigos que me defendem e dizem realmente o que eu fiz na minha infância (que era sim, uma brincadeira para mim, que hoje virou coisa seria e responsável), quem eu sou e de onde venho... Principalmente de onde eu venho!!! Sou isso, uma pessoa inserida no que defendo. Não sou ninguém... Porem, Sou o que aprendi apenas, nunca mais que ninguém, e nem menos!!! Sou um gaúcho, não um dançarino ou alguém de Ctg, para se contestar estilo, modelo de bombacha que uso, tamanho de lenço, solado de bota, etc! Não sou fantasia: sou o meio! 
Não tenho ganas de sucesso ou de fama... Muito menos de grandes fortunas... Mas sempre levarei o que penso adiante, pondo o nome dos meus em primeiro plano! Levantarei essa bandeira sempre, sem me importar com imagens (mentirosas) ou simbologias criadas para maquiar o que foi! Levarei o verdadeiro e cru! 
Esse é meu destino: como cerne, sem atenção exagerada a casca!!!

Bom dia a todos!!!...
...E deem cultura a seus filhos!!!

Diego Müller - canoas, chácara barreto - janeiro de 2013

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"Façamos da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança,
do medo uma escada,
do sonho uma ponte, da procura um encontro!"
Fernando Sabino