Por DIEGO MÜLLER

terça-feira, 24 de julho de 2012

Aureliano...


...de Figueiredo Pinto!!!

(Aureliano de Figueiredo Pinto em sua Estância) 

“DEDICO ESTE ENSAIO AOS CONFRADES DA ACADEMIA DE ARTES, CIÊNCIAS E LETRAS CASTRO ALVES, DE PORTO ALEGRE, QUE ME ELEGERAM PARA A CADEIRA Nº 13, DE MEMBRO CORRESPONDENTE, CUJO PATRONO É AURELIANO DE FIGUEIREDO PINTO!”
(Ass. Paulo Monteiro)

Aureliano de Figueiredo Pinto é reconhecidamente um dos mais representativos poetas gauchescos do Rio Grande do Sul. À exceção de um belo artigo do passo-fundense Hilton Luiz Araldi pouco mais se encontra sobre a vida do autor de “Romances de Estância e Querência”.
Poeta e romancista, nasceu na Estância São Domingos, município de Tupanciretã, no primeiro dia de agosto de 1898, filho de Domingos José Pinto e Marfisa de Figueiredo Pinto. Alfabetizado em casa, pela própria mãe, partiu para Santa Maria, em 1908, onde cursou o ginásio. Publicou os primeiros poemas em 1914, na revista “Reação”, de Santa Maria. Dois anos depois se transferiu para Porto Alegre, preparando-se para cursar Direito, mas optou pela Medicina. Introspectivo, recebeu o apelido de “O Corujão”.

Em 1918 divulga novos poemas em revistas e no “Correio do Povo”. No ano seguinte envia ao amigo Antero Marques o poema “Toada de Ronda”, que introduz o “nativismo de feição moderna” em nosso Estado. Assim, insere a literatura rio-grandense num amplo movimento de renovação da gauchesca iniciado no Uruguai. O poema, em sua forma definitiva, seria publicado em “Romances de Estância e Querência – Marcas do Tempo”.
Trata-se de um movimento que tem suas origens na revista “El Fogón”. “Em setembro de 1895 – escreve o professor Daniel Vidart – um conjunto de entusiastas burgueses montevideanos funda a Revista ‘El Fogón’ para fazerem brilhar nela suas fagulhas poéticas. Isto não era um fato isolado. Depois da consagração do ‘Martín Fierro’, de José Hernández, que superou em qualidade e riqueza ao seu modelo ‘Los tres gauchos orientales’, de Lussich – ambos editados em 1872 – havia florescido em ambas as margens do Prata uma subliteratura gauchesca, forjada ao paladar de um ávido público consumidor. Esta produção, comumente de ínfima qualidade, arrastou, durante uns vinte anos, à decadência um gênero que nasceu como um testemunho e culminou como uma evocação. Os abortos teatrais brotados a esse amontoado inauguraram a luz dos holofotes do picadeiro circense um incessante pulular de dramalhões – puro talho, punhalada e chorar de chinas e nazarenas – que satisfaziam as exigências dos litorâneos nostálgicos do campo distante. Por seu lado, as produções poéticas – de algum modo tem de chamá-las – circularam de mão em mão muito mal impressos em livrinhos, folhetins e folhas soltas que eram lidas aos tropeços pelos leitores nas penumbras dos bolichos ou dos ranchos suburbanos e paupérrimos enquanto um auditório analfabeto procurava reconhecer, atrás dos afetamentos e deformações, o distante sistema de sinais de uma realidade afundada para sempre. Os agitados pelo êxodo rural, sobreviventes de uma sociedade que substituído a existência periférica do gaúcho pela igualmente marginal do povinho de ‘ratos’ ou a ‘vila-miséria’, se encontravam elegiacamente com um paraíso perdido, convertido em mito, habitada por uma turba de fantasmas melenudos que combatiam com a força prepotente e bêbada, representante do governo, aliada com os estancieiros e protegida pelos comerciantes e, por isso, sempre vencedora".


TOADA DE RONDA
A Cassio Annes Dias 

Ronda mansa... Noite linda!
Bem baio-branco está o luar.
Rondando o segundo quarto,
Companheiros! vou cantar:

É lindo uma comitiva
quando se vai fazer tropa:
poncho e laço, galho atado,
chapéu batido na copa.

E a cavalhada por diante,
e os pingos barbeando o freio.
Charla a indiada estrada fora
inté o primeiro rodeio.

Fora boi!... Sta fora o boi!
boi brasino, que é bom pelo.
E, como corda de viola,
chega o brasino ao sinuelo.

Meu mourito Orelha-Curta
sabe como é que se faiz:
se o boi pula... pula junto,
não se apartam nunca mais.

Quebra boi... ai! quebra, quebra!
Bate aspa e casco – é uma piorra.
Quebra... quebra... ai! varre... varre!
que redemoinhe e não corra!

Nesse trechito o meu Zaino
à direita e esquerda calça.
Que rédea, amigos! o flete
parece que dança valsa.

Ôpa... Ôpa... Marcha... marcha!
E, na primeira porteira,
é só no mais... Talha... Talha!...
no meio da polvadeira.

Meu Pangaré-Malacara
– com a cavalhada na ponta –
se empina e atira e não pára:
quage me faiz errá a conta.

Venha... Venha... Venha boi!
Abro o peito nas estradas.
Venha boi... ai! venha... venha!
E a tropa marcha encordoada.

E eu chamo ao tranco do Alegre
– chapéu torto, pala ao vento,
mais hôme que um comandante
na frente de um Regimento.

Venha... venha... ai! venha boi!
Passo cheio ou povoação,
quando abro este peito velho,
a tropa é aquele cordão.

No meu tordilho Gadelha,
que é um peixe em que coube arreio,
largo tropa inté no mar,
tanto faiz baixo ou bem cheio!

Ai que boi... Ai! volta... Volta!
Deus do céu que escuridão!
Volta boi... (qual volta... Volta!)
troveja na escuridão!

Quando ela estoura na ronda,
sem medo o Pachola espicho!
que ele sabe onde hai buraco
pela catinga dos bichos.

Ah! uma quadrilha macota
é o galardão do tropeiro.
Sai dos pagos missioneiros
chega escarceando em Pelotas...

Embora simpático ao Partido Republicano Rio-Grandense, ao testemunhar o massacre de operários promovido pelo governo de Borges de Medeiros, marcam sua indignação contra toda e qualquer forma de ditadura, influenciando na concepção do romance póstumo “Memórias do Coronel Falcão”. Segundo os seus biógrafos esse massacre teria acontecido em 1920. Ao compulsarmos a história do movimento operário gaúcho concluímos que os fatos aludidos devem ser o massacre de trabalhadores, em Porto Alegre, durante a greve de 1919.
Em 1924 transfere-se para o Rio de Janeiro, onde cursará Medicina. Dois anos depois, retorna ao Rio Grande do Sul, participando da Revolução de 30 como capitão-médico. No ano seguinte conclui o curso de Medicina. Volta ao Rio de Janeiro, onde se especializa, com o professor Fernando Magalhães, em obstetrícia.

Fixa no interior do Estado. Em 1935 é convidado para assumir a chefia da III Cátedra Médica, na Faculdade de Porto Alegre, mas não aceita mudar-se para a capital. Em 1936 começa a escrever o romance “Memórias do Coronel Falcão”, que conclui em março do ano seguinte, mas que somente seria publicado em 1973. Há uma história interessante envolvendo esse livro. Certa feita flagrou seu filho José Antonio lendo a obra. Indignado lançou os originais ao fogo, sendo salvos pela esposa Zilah. Mais tarde, alguns trechos queimados foram recuperados com o auxilio de amigos do poeta, especialmente Antero Marques.

Em 1937 assume a chefia do Posto de Higiene de Santiago, retornado a Porto Alegre no ano seguinte para casar com Zilah Lopes, com quem teve três filhos: José Antônio, Laura Maria e Nuno Renan. Em 1941, convidado pelo interventor estadual Cordeiro de Farias, assumiu a subchefia da Casa Civil, cargo que exerceu durante dois anos. Certo dia, ninguém sabe por que, abandonou tudo e retornou para Santiago. Ali, exerceu a clínica médica, enquanto a saúde lhe permitiu. 


Em 1959 é publicado seu único livro em vida: “Romances de Estância e Querência – Marcas do Tempo”, pela Editora Globo. O filho José Antônio espera até que os primeiros exemplares estejam concluídos. Leva alguns exemplares a Santiago. O poeta está com câncer. Consegue apenas ditar à filha Laura Maria as dedicatórias e assiná-las. Falece no dia 22 de fevereiro daquele ano. 

Embora Homem culto, leitor dos clássicos nacionais e estrangeiros, mistura os linguajares culto e popular com maestria.
A experiência de médico dedicado ao atendimento das camadas mais humildes da população foi fundamental para sua obra literária. As longas entrevistas mantidas com homens e mulheres pobres das fazendas e bairros de Santiago, somadas à vivência desde a infância com as atividades rurais, contribuíram para que o escritor dominasse a linguagem e a cultura dos gaúchos a pé e a cavalo.

É no romance “Memórias do Coronel Falcão” que esse livre trânsito entre os falares de homens estudados e não escolarizados é mais notável. Gustav Flaubert é apenas uma de suas influências. O autor de “Madame Bovary” serve-lhe de modelo para falar livremente sobre a sexualidade do gaúcho brasileiro, sexualidade que deveria conhecer muito bem, graças à condição de médico de aldeia. A grande influência é Euclides da Cunha, como se pode verificar mediante uma leitura atenda e meditada do romance. Como o autor de “Os Sertões”, mistura palavras eruditas, plebeísmos, arcaísmos e expressões científicas. Neste caso, através de explicações sobre fenômenos. Seguramente, beneficiou-se das críticas feitas aos aspectos formais da “Bíblia da Nacionalidade”.

Típico representante de uma geração que recuperou a obra de Simões Lopes Neto, a presença do autor dos “Contos Gauchescos” é outra constante em sua obra, como lembram os críticos. Ele mesmo foi um grande divulgador da obra literária do escritor pelotense.
“Memórias do Coronel Falcão” é o grande romance da política rio-grandense na primeira metade do Século XX. Conheceu a política estadual em suas mais altas esferas, como subchefe da Casa Civil do interventor Cordeiro de Farias, entre 1941 e 1943. Não aceitou concorrer a deputado, retornando a Santiago. E a política municipal, seguramente, conhecia muito bem. Seu livro é um retrato do autoritarismo e da corrupção. Disseca o caciquismo e a gingolagem dos dirigentes partidários a nível municipal. 

A corrupção é tal que chega aos presídios. As loucas e os meninos de rua, os que jogavam pedras nas casas, roubavam frutas ou faziam algazarra, eram soltos nas celas, para diversão dos presidiários. Impostos, os companheiros de partido não pagavam.
Conhecedor profundo dos clássicos brasileiros e universais, Aureliano de Figueiredo Pinto não gostava que lhe chamassem publicamente. Luiz Sérgio Metz acredita que isso se devesse ao elevado senso crítico do autor, que conhecia profundamente os clássicos brasileiros e universais. Em 1936 já dispunha de três cadernos com poemas. Exatas duas décadas depois, inicia uma seleção, que resultará no livro “Romances de Estância e Querência – Marcas do Tempo” (Editora Globo, Porto Alegre, 1959). Poucos dias antes de falecer, em 22 de fevereiro, recebeu dez exemplares do livro, que dedicou a amigos. Ditou a dedicatória à filha, pois mal pode assinar. Em 1963, é editado, “ad sodalibus”, o segundo livro de poemas “Romances de Estância e Querência – Armonial de Estância e Outros Poemas” (Livraria Sulina, Porto Alegre).
Em 1973, a Editora Movimento, de Porto Alegre, deu a lume a primeira edição do romance “Memórias do Coronel Falcão”, que é reeditado no ano seguinte. A edição definitiva, terceira, sai pela mesma editora em 1986, cuidadosamente revista por Antero Marques, Plínio de Figueiredo Pinto, seu irmão, e Romeu Beltrão, seu amigo, “que leu nada menos de quatro vezes a segunda edição da obra de A. de F. Pinto”. Em 1998, a mesma editora entregava ao público “Itinerário – Poemas de Cada Instante”, poemas líricos, dedicados a uma mulher, cujo nome o próprio autor rasurara, desejando que o nome fosse conhecido, mas não revelado.
A exemplo dos grandes criadores literários, os críticos se dividem ao analisar a obra de Aureliano de Figueiredo Pinto. Razão cabe a Helena Tornquist: “Num balanço final do legado desse escritor que teve a secreta intenção de estar escrevendo para as futuras gerações, deve-se salientar que uma certeza o movia: os tempos mudavam e era preciso preservar a memória do Rio Grande Agrário que se transformava. E nisto sai obra se manteve coerente: desde o primeiro poema que, nunca se afastou do propósito registrado em carta de 1936: o de fixar flagrantes e imagens de seres e instantes do meio rio-grandense”.
O que o crítico Carlos Jorge Appel, editor de “Memórias do Coronel Falcão”, afirma desse livro, se aplica a todo o restante da obra do Autor: “Se Aureliano de Figueiredo Pinto não conseguiu ressonância, foi simplesmente por não haver publicado seu romance no devido tempo”.
A partir de 1975 os poemas de Aureliano conseguiram divulgação ímpar. Noel Guarany, conhecido compositor e intérprete regionalista, conseguiu autorização da família para musicar “Bisneto de Farroupilha” e “Canto do Guri Campeiro”, que fazem parte de “Romances de Estância e Querência”, o mais gauchesco dos seus livros de poemas.
“Bisneto de Farroupilha” é um dos mais belos poemas que já se escreveu no solo rio-grandense. Nele encontramos todas as características que desse gênero ou subgênero poético: a personalidade forte, marcadamente individual, do homem da campanha, a profunda solidariedade humana, a independência diante do Estado, a bravura individual, que se materializam num quase anarquismo, oposto à modernização capitalista que a tudo transforma em mercadoria.


BISNETO DE FARROUPILHA

Pobre... Mas livre! Gauchito
no sol-a-sol, sou o que sou.
Pois nem dom Pedro Segundo
não pode – o senhor de um mundo!
dobrar o meu bisavô.

Com esta alma guapa nos tentos
debaixo do meu sombreiro,
pelo Poder e o Dinheiro
nunca ninguém me levou.
Pois nem o taura Castilhos,
famoso pelos codilhos,
pode voltear meu avô.

E ao tranco do meu Lobuno,
passam por mim carros finos,
com espertos e ladinos
que a escovação empilchou.
Sigo... Às vez’ sem nenhum cobre,
sem que a secura me dobre!
– Se meu Velho está índio pobre,
porque a ninguém se dobrou.

Conterrianos, moços lindos,
com humildades de escola,
curvam a espinha de mola,
no culto de um ditador,
seja qualquer que ele for!
– Com a fumaça de um bom fumo,
chapéu torto, corto o rumo,
ao tranco do meu Lobuno,
sem dar louvado a um senhor.

Deus velho dá o sol também
ao que sabe ser torena
e não suporta cadena
de feiticeiro ou papão.
Não me enredo nessas trampas!
E vou cruzando estes Pampas,
só escravo do coração...

.........................

AMGOS!... Quando eu me for
ao país do eterno olvido,
aqui fica este pedido
antes que a Morte comande!
– Ponham-me ao peito sem chucho
o santo trapo gaúcho
da tricolor do Rio Grande!

Quando escrevo este artigo recebo a notícia de que um grande e querido amigo, jovem de 36 anos, com o qual muitas vezes discuti sobre a história e a cultura do Rio Grande enforcou-se. Foi um dos mais brilhantes estudiosos da história passo-fundense. Lembro-me de um poema de Aureliano. E é em homenagem póstuma àquele amigo que muito colaborou para a publicação de meu livro “Combates da Revolução Federalista em Passo Fundo”, que transcrevo o belo poema, que faz parte de “Romances de Estância e Querência – Marcas do Tempo”.

(Aureliano à direita)

“Romances de Estância e Querência II – Armonial de Estância e Outros Poemas” é a primeira obra póstuma do Autor. Apesar de, segundo os críticos, não ter sido organizado pelo poeta, ao contrário do que os críticos pensam, mantém, sim, uma unidade literária. Se, na primeira obra, o lirismo e o telurismo regionalistas eram maiores, aqui, destaca-se o tom épico. À exceção dos pequenos poemas que compõe a parte intitulada “DE NOITE AO TRANQUITO”, continuação do livro anterior, Aureliano traça a história do Rio Grande do Sul em versos, como no poema “OS FARRAPOS”, em que canta a Revolução Farroupilha (1835-1845).


VII
OS FARRAPOS


Sofre o Rio Grande a amputação, surpreso!
Psíquica dor no inexistente membro
irrita a gauchada atenta e alerta
que explode, enfim, na rebeldia aberta
da jornada do 20 de setembro.

Era o sonho: – a República no Império
do Prata ao Norte em confederação.
Eis o ideal por que os próceres se movem:
– vir à Banda Oriental, sendo a mais jovem
fúlgida estrela da constelação.

Falhou o sonho... E aos Generais e aos moços
só resta ir desfraldando e abrindo cancha
apodados de pobres farroupilhas,
por dez anos, por pampas e coxilhas,
a legendária tricolor sem mancha.

Tricolor! Sobre o olvido e sobre as chamas
guardas a eternidade das medalhas.
Nas cores do Brasil a componente
que te impôs o destino desta gente:
– fulgor de sangue sobre cem batalhas!

E ao lado do auriverde pavilhão
que drapejava aos minuanos e nas auras,
tens a unção dos vitrais e das estampas.
– Nossa Senhora emocional dos Pampas
transfigurando os corações dos tauras!

Ah! Trinta e Cinco... aqui estagiou Portinho
num vasto acampamento migratório.
E a Boca-do-Monte, guarda o posto,
cortando campos de janeiro a agosto,
vinham guerrilhas do tenente Osório.

E João Antônio e Canabarro, bravos,
na Cordilheira bruta abrindo o trilho,
aqui chegaram da fronteira guapa
por darem glória à tricolor farrapa
na alvorada de outubro, no Espinilho.

Farrapos e legais nessa mangueira,
às vezes uns, logo mais tarde os outros,
volteavam tumultuosas bagualadas.
E estagiavam em largas churrasqueadas
polindo as armas e domando os potros.

Lá naquela coxilha está Crescêncio,
morto nessa famosa retirada
da capital para a fronteira... E, atento,
fico pensando como o grande Bento
por honra e idéia flamejava a espada!

Bento Gonçalves!... Lidador excelso!
Republicano sem Cesário estigma,
que o infortúnio e as masmorras não consomem!
– O Sol e a argila dos rincões num Homem
com as virtudes totais de um paradigma.

Por seu ideal – livre do cetro a Pátria.
Chefe opulento e grã-senhor, concita!
E saúde, bravura, mocidade, fortuna
– esbanja pela liberdade
e morre pobre como um eremita!

Bento Gonçalves! Singular figura
em seu tempo e em seu meio! E sempre os hinos
terá do Pampa que lhe ardeu no peito.
– Verde moldura do perfil perfeito
do mais escultural dos paladinos.

Panteon soberbo do Rio Grande! Ainda
avultam todos com perfil tristonho
na gravura imortal de alta memória.
E encherão de esplendor a História
as labaredas de seu grande sonho.

A paz de Ponche Verde... à tarde e ao tranco
aqui chegou, com baixa da Coluna,
para capatazear, um campeiraço!
– O moço alferes que perdera um braço
junto de Garibaldi, na Laguna...

Aureliano de Figueiredo Pinto, ao reproduzir em estilo épico a História do Rio Grande do Sul, segue a historiografia tradicional, de cunho positivista. A não romper (pelo menos de todo) com a filosofia positivista sua obra, historicamente, é limitada. Chega no máximo a um reformismo político. Não é à toa que os estudiosos das idéias políticas ligam o populismo, seja o trabalhismo brasileiro, seja o justicialismo argentino, a influência exercita pelas idéias de August Comt.

Daniel Vidalt, em 1968, escreveu: “hoje o gauchismo, o nativismo e outras tendências afins buscam, para perdurar, novos veículos de comunicação poética. Não se animam a andar somente apoiados na palavra em meio deste vento que sobra de baixo, dos cimentos mesmos da América. A Revolução Cubana, o subdesenvolvimento como realidade e consciência, a luta antiimperialista dos povos, nos retroagem à época de Hidalgo: o poeta se transmuta então em cantor e dialoga, viola na mão e música na boca, com um auditório que reclama uma proclamação oral, direta, militante, revolucionária”.
Aureliano de Figueiredo Pinto antecipa o período retratado por Daniel Vidart. Jamais foi um revolucionário. Possivelmente, jamais o seria. Seus poemas de cunho social, como de resto várias passagens de “Memórias do Coronel Falcão”, estão cheios de conceitos revisionistas. Em “CANÇÃO DO MARGINAL” ecoam os pensamentos reformistas, que ressoariam, algum tempo depois, nos discursos do maior teórico trabalhista, Alberto Pasqualini. É um discurso ainda mais duro. Ao misturar uma prática de então, o contrabando e falsificação de pneus brasileiros, que através da Argentina, chegavam às forças nazistas.
O contrabando e a falsificação de pneus fizeram a fortuna de muitas, tradicionais e respeitáveis famílias. Por isso, até hoje, é verdadeiro tabu. Para o pobre não havia lugar nem mesmo entre os criminosos que lhe negavam um trabalho honesto. Até mesmo a desonestidade é apropriada pelos poderosos.
À época, a palavra marginal não tinha o sentido atual, de elementos criminosos, que vive à margem da Lei. Entendia-se como marginal o pobre, o proletário, o sem-terras, o descamisado, aquele que vivia à margem da Economia. Assim, como todo o poema social, é datado.


(Equipe média em POA juntamente com Aureliano)

CANÇÃO DO MARGINAL

Foi legionário da coluna invicta!
Bravo, bateu-se com orgulho nobre.
Hoje, em 44, é um trapo humano.
E ouve, na angústia do seu desengano
“... não há va...gas!” Pobre...

Voluntário de 30 e 32
sonhando a Pátria que o ideal descobre,
marchou, com honra, pelejou com brilho.
E hoje, este melancólico estribilho:
“... não há va...gas!” Pobre...

Hoje, magro de dívidas e fome,
a princípio a tragédia mal encobre.
Mas, afinal também quer ter sossego.
E eis a resposta à súplica de emprego:
“... não há va...gas!” Pobre...

Pobre! Cansado de esperar promessas
na esperança de que a sorte se lhe dobre,
pede um posto, um lugar, modesto cargo.
E ouve ferino este refrão amargo:
“... não há va...gas!” Pobre...

Triste! A miséria, os filhos em andrajos,
tudo lhe soa com suturno dobre.
Pede um lugar ao sol para o trabalho.
E a resposta é mais dura do que um ralho:
“... não há va...gas!” Pobre...

Doente! O peito lhe arqueja num cansaço.
Não há tranqüilidade que lhe sobre.
Algo mendiga que permita um prato.
Como resposta o estúpido e gaiato:
“... não há va...gas!” Pobre...

Cansa! E se lembra dos pneus rendosos!
Talvez no contrabando não sossobre
tendo agasalho e pão para a família.
Grita-lhe a opulentíssima quadrilha:
“... Não há va...gas!” Pobre...

Em "Romances de Estância e Querência II – Armonial de Estância e Outros Poemas”, encontramos ao final da obra, alguns poemas que são verdadeiros testamentos do poeta.

(Com sua irmã e sua Mãe em Santiago)

O MEU CRISITANISMO...
Às minhas patrícias

É a velha, humana, repetida história:
depois de um doloroso dia-a-dia,
resta a cinza das flamas da energia
e o gosto amargo da existência inglória.

Sob a soalheira, ou pela noite fria,
seguindo a estrela esplendida e ilusória,
teci o mais alto bem na alheia glória
sem mesmo perguntar porque fazia.

Vêm depois os crepúsculos caindo.
Faço a minha colheita na amargura
das pobres searas do meu sonho lindo.

E no pudor da mágua sem alarde,
espero o olhar de Deus baixar da altura
na última luz do sol da minha tarde...

Num outro soneto, espécie de complemento daquele que transcrevo acima, há um canto de gratidão a Deus. Vê-se a limitação que o médico entendia no seu trabalho, lembrando às vezes em que intercedera em espírito de oração pela saúde dos filhos.


ESTOU GRATO, SENHOR

Quanta vez, coração feito em pedaços
com filhos – presas de tremenda doença,
eu Te pedi, Senhor! Na angústia intensa,
com voz do pensamento nos espaços:

– Todo infortúnio, toda grave ofensa
afasta dos caminhos e dos passos
da criança enferma que hoje trago aos braços
e caia sobre mim tua sentença.

Estou grato, Senhor! Pelo que passa:
a mim os males que fatais pressinto,
a eles as luzes da Divina Graça.

Estou grato, Senhor! Sombras se adensam
na minha tarde. E que feliz me sinto
se aos filhos deste as tuas grandes bênçãos.

E “Romances de Estância e Querência II – Armonial de Estância e outros poemas” encerra-se com este soneto magistal:

ÚLTIMA PÁGINA

Vida que vai ficando... A encantada paisagem
e os entes que se amou. E as cousas que se quis.
Gestos de amigos leais. Femininos perfis
que deixaram num verso a enternecida imagem.

Dura viagem da vida... A romanceada viagem.
De instante a instante. Aqui e além. Triste ou feliz.
Com inscrições de bronze e legendas de giz
no roteiro incolor da efêmera passagem.

Certos dias que estão embalsamados na memória.
Certas noites de luar. E as dardes de aquarelas.
E esses vitrais de acaso. E tanta íntima história.

E vamos indo... Até – sem um rictus na face –
à hora convencional das irônicas velas
e o tremendo latim do – Requiescat in pace...


(Estátua em Santiago)

Carlos Jorge Appel, editor e crítico literário, na Introdução que escreveu para “Itinerário – Poemas de Cada Instante”, conta que a obra de Aureliano de Figueiredo Pinto proporcionou-lhes duas surpresas. A primeira delas o romance “Memórias do Coronel Falcão”.
“A segunda surpresa nos chegou às mãos, de novo, através de José Antônio de Figueiredo Pinto, sempre preocupado com a obra do pai, em dezembro de 1996: os poemas inéditos contidos num único caderno, com o título de Itinerário – poemas de cada instante. Ao me passar os originais manuscritos, com letra, em geral, clara e inteligível, José Antônio observou: “a página inicial está rasurada ao meio. Foi intencional. Deveria estar aí uma dedicatória que meu pai não quis que aparecesse.
Mas a gente sabe a quem a dedicatória foi feita”.
(...)


“A natureza exterior, a campanha, os costumes, o modo de vida do gaúcho com seus avatares e linguagem própria compõe a matéria-prima de Romances de estância e querência – Marcas do tempo e do seu segundo livro, publicado após a sua morte, Armonial de estância e outros poemas.
Em Itinerário, o dia-a-dia da campanha cede lugar ao mundo interior, onde os temas são a transitoriedade do amor, a paixão, a perda da mulher amada, a desolação, a morte, os limites do ser humano. A linguagem acompanha a universalização dos temas e alcança uma dimensão clássica, ou seja, aquela dimensão que está para além de todos os modismos e circunstâncias e que expressam o essencial do homem de todos os tempos”.
De fato, como reconhece o editor e revisor de duas das obras de Aureliano, perpassa em todo esse pequeno grande livro, um lirismo de sabor clássico. Muitos poemas lembram Fernando Pessoa e seus heterônimos. Em tantos deles há algo lembrando Alberto Caeiro. E é exatamente isso que confere a “dimensão clássica” destacada por Jorge Carlos Appel, a começar pelo soneto que abre a coletânea.

(Túmulo de Aureliano de Figueiredo Pinto em Santiago)

EX-LIBRES

Vida integral. Total. Princípio e fim!
Amo-te até no mal que me lacera.
E, a cada novo instante que me espera:
– Vida! Me exalto por viver-te assim!

A alma fulgura. O sangue reverbera.
E aos dardejantes sóis, no torvelim,
sinto que vibram séculos em mim,
nas soalheiras de cada primavera.

No meu dia de doida claridade
as corolas e os ninhos – soluçantes
fremem nos ritos da perpetuidade.

Quando eu rolar para o meu chão profundo,
algo de mim perpetuará os instantes
com que a mim mesmo me esbanjei no mundo...

 
(Zeca Blau - Irmão de Aureliano)

Nesse soneto, em que apresenta os demais poemas, há mais do que lirismo, há reflexão lírica, o que, de certo modo, será uma constante em Itinerário. Aqui se vê a “dimensão clássica”, em toda a sua extensão, como “Vida integral”. E vida integral é a união entre o interior do “Amo-te até no mal que me lacera”, pela exaltação desse amor, a fulguração da alma, a reverberação do sangue, o dardejar dos sós, a vibração dos séculos nas soalheiras primaveris. Tudo isso indo acabar no “chão profundo” de cada ser humano.
Essa fusão de elementos interiores e exteriores somente pode processar-se através da racionalidade, que somente pode ser a mediação lírica ou o lirismo reflexivo. O que caracteriza o clássico, mas o clássico mesmo, no sentido de retorno à ancestralidade grega, é a união entre razão e sentimento.

Os gregos do período áureo, ao separarem razão e sentimento, causaram um grande mal à Humanidade. Ocorreu a separação entre o homo sapiens e o homo demens, revelando os complexus, aquilo que é tecido em conjunto, na melhor definição grega, segundo vemos em “Amor Poesia Sabedoria”, de Edgar Morin. Aureliano de Figueiredo Pinto, em Itinerário, reúne o que a racionalidade separou, reconstitui o homo sapeins/demens, a “vida integral”, o homem integral. E isso apenas é possível porque nele o homo sapiens, representado pelo médico, está a serviço do homo demens, o poeta.
A integralidade humana envolve a ligação do homo sapiens/demens com a Natura. Aí a análise de Jorge Carlos Appel é limitada quanto à poética de Aureliano. A natureza da campanha e o modo de vida do gaúcho estão presentes, sim. Vemo-los através da história, representada pela vibração dos séculos, que plasmaram o modo de vida do gaúcho, e do meio, materializado pela soalheira primaveril, que temperou o homem do campo rio-grandense.
Veja-se, a seguir, outro dos tantos sonetos de Itinerário onde é plena a integralidade entre homo sapiens/demens e Natura:

XIII

A água que eu bebo tem o gosto do teu beijo;
a manhã lembra a luz pagã do teu sorriso.
Sugere a névoa o vago olhar, longe, impreciso,
de quando aplacas, fina e langue, o teu desejo.

A asa que passa, no céu alto, em vôo andejo,
lembra o teu gesto arisco em sutil sobreaviso.
E, na árvore alta e fina, e na flor do paraíso,
tendo-te toda em mim, sempre em tudo te vejo.

Bruna e pálida, alta e trêmula, os cabelos
cheios da escuridão das noites em que amamos!
– Sinto-te no meu sangue em tumultos e apelos.

Em tua leve silhueta o mundo se resume.
E quando, sem encontrar-nos, nos buscamos,
ruge em minha alma em sombra a alma do teu perfume. 

A gauchesca, o nativismo, a canção de protesto, o lirismo de recorte clássico, que fazem lembrar “o gauchismo cósmico” de um Fernán Silva Valdés ou de um Pedro Leandro Ipuche, estão presentes na obra poética de Aureliano de Figueiredo Pinto. Poeta culto, usa a profissão de médico para apropriar-se da alma gaúcha, resumindo a evolução estética da poesia popular de raízes regionalistas, a gauchesca. E isso o transforma no mais representativo poeta gauchesco, nativista ou de “outras tendências afins” de língua portuguesa de todos os tempos.
Aureliano de Figueiredo Pinto jamais teve a preocupação de dar ampla publicidade a sua obra. A política, seja partidária ou literária, eram-lhe quase que indiferentes. Possuía uma acurada consciência da durabilidade de sua obra, como vemos neste trecho, dele mesmo, com que Helena Tornquist encerra a biografia que dedicou ao escritor: “A nossa vida, na renúncia de sua modéstia tem algo a dizer à mocidade de amanhã, porque foi vivida à nossa maneira, ao jeito do fio d’água que corre à margem da barulhenta cascata que é a opinião-do-Senhor-todo-Mundo”. 

(Poema de aniversário ao irmão, Zeca Blau)

Bibliografia:
APPEL, Carlos Jorge. “Memórias do Coronel Falcão”. Apresentação, In: PINTO, Aureliano de Figueiredo. “Romances de Estância e Querência – Marcas do Tempo” (Primeira Edição). Porto Alegre, Editora Globo, 1959.
APPEL, Carlos Jorge. “ITINERÁRIO – Poesia inédita de Aureliano de Figueiredo Pinto”. In: PINTO, Aureliano de Figueiredo. “Itinerário – Poemas de Cada Instante”. Porto Alegre, Editora Movimento, 1998.
PINTO, Aureliano de Figueiredo. Memórias do Coronel Falcão. Porto Alegre, Movimento, 1974, p. 5-17.
GARCIA, Serafin J. “10 Poetas Gauchescos del Uruguay”. Montevideo, Libreria Blundi, 1963.
METZ, Luiz Sérgio. “Aureliano de Figueiredo Pinto”. Porto Alegre, Tchê! Editora Ltda./RBS, Porto Alegre, 1986.
MORIN, Edgar. “Amor Poesia Sabedoria”. Rio de Janeiro, Bertrand do Brasil, 2002.
PINTO, Aureliano de Figueiredo. “Romances de Estância e Querência – Armonial de Estância e Outros Poemas” (Primeira Edição). Porto Alegre, Livraria Sulina, 1963.
PINTO, Aureliano de Figueiredo. “Memórias do Coronel Falcão” (Terceira Edição). Porto Alegre, Editora Movimento, 1986.
PINTO, Aureliano de Figueiredo, “Itinerário – Poemas de Cada Instante”. Porto Alegre, Editora Movimento, 1998.
TORNQUIST, Helena. “Aureliano de Figueiredo Pinto”. Porto Alegre, Instituto Estadual do Livro, 1989.
VIDART, Daniel. “Poesía y campo: del nativismo a la protesta”. Capítulo Oriental 23. Modevideo, Centro Editor de America Latina, 1968.

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"Campeiro! ...Afirma os estribos, regula bem o teu braço, porque a bonita é aragana! Quando gaúcho se engana errando o tiro de laço..."
(Aureliano de Figueiredo Pinto)




sábado, 21 de julho de 2012

Águas...




Sertão das águas
(Martim César)

Arrepare n’água, seu moço
Parece ser tão igual
Mas o seu jeito de poço
Dá bem a cor do seu mal...

Eu vô fiando essas rede
Tentando sobrevivê
Olhando o rio, que de sede
Já não faz mais que morrê...

Meu pai contava, seu moço
Que em tempos do meu avô
Havia festa... alvoroço
Na volta dos pescadô...

Agora as rede se some 
Pelas fundeza do rio
E quando voltam os home
Só barco e olhos vazios...

Não sei vivê doutro jeito
Sou pescadô de pequeno
De quando as água do leito
Não conheciam veneno...

...Vejo no olhar do meu filho
A mesma interrogação
Pra quê as rede que eu fio
Se a vida volta mais não?


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“Terra... és o mais bonito dos planetas!!!...”
Beto Guedes

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Deserto verde...

...e o eucalipto!


A expressão deserto verde é utilizada pelos ambientalistas para designar a monocultura de árvores em grandes extensões de terra para a produção de celulose, devido aos efeitos que esta monocultura causa ao meio ambiente. As árvores mais utilizadas para este cultivo são sobretudo o eucalipto, pinus e acácia.
Impactos sócio-ambientais da monocultura extensiva de árvores
Os impactos sócio-ambientais aqui citados referem-se à condição de plantio de árvores produtoras de celulose em regime de monocultura extensiva. A intensidade destes impactos depende das condições ambientais anteriores ao plantio, da espécie de árvore a ser plantada e da extensão da área de cultivo. De modo geral, pode-se inferir os riscos de:

Desertificação das regiões plantadas: por serem árvores de crescimento rápido, há grande absorção de água, podendo levar ao secamento das nascentes e exaustão de mananciais de água subterrânea, afetando seriamente os recursos hídricos locais. Estudos apontam que no Espírito Santo 130 córregos      secaram após a introdução da monocultura no estado, o que impacta nas comunidades que vivem nas regiões vizinhas.
Prejuízo aos solos: como toda monocultura, há exaustão dos solos, o que inviabiliza outras culturas. Além disto, o solo fica exposto durante dois anos após o plantio e dois anos após a colheita, facilitando a erosão.
Redução da biodiversidade: a alteração do habitat de muitos animais faz com que nas regiões de monocultura de árvores só haja formigas e caturritas.
Concentração de terras: para produzir em grandes extensões, as terras são adquiridas aos agricultores, que se deslocam da região gerando um vazio populacional, associado ao êxodo rural.
Pouca geração de empregos: as monoculturas são altamente mecanizadas.
Desmatamento: no Brasil, a associação do eucalipto como alimento aos fornos das siderúrgicas tem induzido o desmatamento nas regiões vizinhas a estas indústrias.


O termo deserto então provém tanto do efeito de deertificação e erosão dos solos quanto do vazio em biodiversidade e em populações humanas encontrado nas regiões de cultivo. Para mitigar estes efeitos, alguns especialistas propõem o plantio de outras espécies vegetais entre corredores dedicados ao plantio de árvores produtoras de celulose. Entretanto, as empresas resistem à aplicação de tal técnica, pois sua meta é maximizar os lucros. Outros cientistas propõem a pesquisa com espécies nativas para produção de celulose. Segundo eles, tais espécies seriam menos danosas ao meio-ambiente.

O plantio do eucalipto vem se expandindo cada vez mais em nosso país, devido à grande rentabilidade que é capaz de gerar. O presente trabalho tem por objetivo fazer uma breve análise crítica desta cultura, citando e explicando o conceito de deserto verde bem como de monocultura. Explicitamos ainda alguns usos para a madeira do eucalipto, como demonstra um gráfico do ano de 2005 para ilustrar o mesmo. Buscamos deixar claro alguns impactos causados por esta monocultura, bem como deixamos também um espaço para a análise do ponto de vista das empresas que fazem uso do eucalipto, citando o exemplo da Aracruz.
Palavras-Chave: eucalipto, deserto verde, Aracruz, monocultura, celulose.


O EUCALIPTO
O presente texto tem por objetivo fazer uma breve análise da monocultura em larga escala de eucalipto, uma prática que vêm se tornando cada vez mais freqüente em nosso país, dada que a rentabilidade dessa prática é altamente lucrativa, principalmente para as grandes empresas que atuam no setor de produção de celulose, exploração da madeira para a fabricação de móveis, bem como sua utilização como lenha ou para produção do carvão vegetal.
Buscamos também fazer uma breve crítica a essa prática por meio da análise de alguns impactos negativos causados por essa cultura, tanto no âmbito econômico, como no social e também no cultural. Ainda tentamos descrever o que dizem as empresas que exploram a madeira para os diversos usos citados, dando a oportunidade de se analisar e tirar suas próprias conclusões sobre o estudo, não se esquecendo, porém que a nossa opinião tende mais para o lado da crítica negativa de tal atividade.
Vamos também, tentar analisar o porque do uso do termo “deserto verde” para designar as grandes plantações do eucalipto, suas implicações, possíveis problemas causados e o porque esse termo tem sido cada vez utilizado com mais freqüência, principalmente pela nossa mídia.


A MONOCULTURA E O DESERTO VERDE
O eucalipto é uma planta originária principalmente da Austrália e do continente da Oceania, embora algumas raras espécies sejam de ilhas como Nova Guiné e Timor, além das Ilhas Moluscas (ANDRADE, 1918, p. 3). Sua implantação em outras áreas se deu somente no século XIX, começando pela Europa, passando pelos Estados Unidos e finalmente chegando ao Brasil por meio do Sr. Frederico de Albuquerque, no ano de 1968, no estado do Rio Grande do Sul (ANDRADE, 1918, p.4). Um dos maiores propagadores da espécie pelo país foi A. Pereira da Fonseca, realizando grandes plantações no estado do Rio de Janeiro, com variadas espécies do gênero eucalyptus (ANDRADE, 1918, p.4).
A planta começou a ser amplamente utilizada depois da descoberta de seu valor econômico, e hoje é utilizada como principal fonte de alimentação da indústria da celulose no Brasil, o que acaba por ocasionar grandes discussões e até mesmo conflitos entre proprietários de terras plantadas com o eucalipto e a grande massa de militantes sem-terra. Uma das grandes vantagens do eucalipto e sua rápida difusão, é o fato de a planta ser capaz de se adaptar aos mais diversos tipos de climas, desde locais quentes e secos, como os deserto australianos, à climas muito úmidos e frios, como na Escócia.
O termo deserto verde vem ganhando um grande destaque na mídia, tanto no âmbito nacional quanto no internacional, devido à grande repercussão que tem causado os atritos que envolvem esse termo. Mas o que afinal define “deserto verde”?


A expressão deserto verde é utilizada pelos ambientalistas para designar a monocultura de árvores em grandes extensões de terra para a produção de celulose, devido aos efeitos que esta monocultura causa ao meio ambiente. As árvores mais utilizadas para este cultivo são sobretudo o eucalipto, pinus e acácia 
(MEIRELLES, 2006).
Grande parte desta discussão se deve ao fato de as terras utilizadas para o cultivo de monoculturas em larga escala, não atingirem um grande contingente de mão-de-obra humana, já que grande parte destas propriedades são altamente mecanizadas, e quando há o emprego de mão-de-obra esta não é devidamente remunerada. Outro fator que tem importância nessa discussão é o fato dessas culturas serem capazes de absorver enormes quantidades de água, podendo até mesmo ressecar rios e outras fontes hídricas existentes no entorno dessas grandes plantações. Como exemplo disso pode ser citado o estado do Espírito Santo, que segundo Daniela Meirelles Dias de Carvalho, geógrafa e técnica da Fase, organização não-governamental que atua na área sócio-ambiental, só no norte do Espírito Santo já secaram mais de 130 córregos depois que o eucalipto foi introduzido na região.


Derrubada de Eucalipto 
Fonte: http://www.rel-uita.org/agricultura/ambiente/fotos/eucalipto-300.jpg
Este problema é relativamente recente na história brasileira, levando-se em conta que a espécie Eucalyptus não é nativa de nosso país, e tem sido trazida em grande escala para o Brasil com o intuito de ser uma rentável e enorme fonte de recursos, provindos especialmente da exportação da celulose, já que os principais fins para o eucalipto são a indústria moveleira, a indústria de celulose a utilização como carvão vegetal e também como lenha. O gráfico abaixo demonstra como é utilizada a madeira proveniente do eucalipto no Brasil:


IMPACTOS NEGATIVOS
Uma série de problemas são gerados devido à exploração de eucalipto em grandes áreas, dentre as quais se destacam as indicadas abaixo:
• Desertificação do clima e de solo: as grandes florestas como as de eucalipto necessitam de uma enorme quantidade de água, para se ter uma idéia, segundo a matéria Deserto Verde (Disponível em: . Acesso em: 10 de novembro de 2008.), cada pé de eucalipto necessita, para crescer satisfatoriamente, levando-se em conta o rendimento econômico, de aproximadamente 30 litros de água por dia, o que acaba gerando um grande déficit hídrico nas regiões onde são cultivados, gerando assim certa desertificação da região. Esse é um grave problema, já que muitas plantações são realizadas às beiras de córregos e nascentes de rios, o que acaba por ressecar o solo, como já foi acima explicitado, tomando-se como exemplo o caso da região norte do Espírito Santo;
• Ressecamento do solo e uma maior exposição à erosão: como o eucalipto está sendo plantado visando-se unicamente uma maior viabilidade econômica possível, depois de alguns anos a plantação é cortada, deixando o solo empobrecido e exposto a erosão, causando enormes impactos ambientais na região onde estava sendo cultivada a floresta. Outro problema é que, para se tentar recuperar áreas tão degradadas como essas, são gastas enormes quantias de dinheiro por parte das autoridades competentes;
• Diminuição da biodiversidade: como acima citado, as florestas de eucalipto são cultivadas priorizando somente um retorno econômico. Assim sendo, não são cultivadas juntamente outras espécies de vegetais, o que diminui a diversidade vegetal da região de floresta, já que a mesma também impede que gramíneas e pequenos arbustos cresçam e se desenvolvam, embora quando estejam pequenas, as árvores do eucalipto, não forneçam um bloqueio radiação solar como quando estão grandes. Outro problema é a falta da diversidade da fauna, já que os únicos animais que conseguem sobreviver nesses tipos de florestas são “formigas e caturritas (aves predadoras de lavouras que usam as árvores de eucalipto como abrigo, mas não se alimentam delas)” (QUADRO: impactos da monocultura do eucalipto. Disponível em . Acesso em: 27 de outubro de 2008.);
• Especialização da atividade produtiva: esse problema se deve ao fato de o cultivo de grandes áreas de eucalipto serem dedicadas somente à monocultura e altamente especializada, gerando um grande desemprego em algumas regiões, que chegam até mesmo a perderem suas características culturais, como por exemplo, cita PEREIRA (2006) em um artigo sobre o cultivo de monoculturas na região sul do Rio Grande do Sul, onde cita que:  o avanço da monocultura de eucalipto na metade sul do Rio Grande do Sul deve gerar a ruptura de duas tradições produtivas: a pecuária, realizada principalmente nos latifúndios, e a produção da agricultura de subsistência, realizada nos interstícios das grandes propriedades.


Esse problema pode acabar por gerar um grande impacto social naquela região, que tem como uma das características peculiares a perpetuação de sua cultura, contando inclusive com centros especializados nessa atividade, como por exemplo, os CTG’s (Centro de Tradição Gaúcha). Quando se analisam dados referentes ao emprego de mão-de-obra na plantação de eucaliptos, comparando-a com outros ramos de atividades, chega-se a uma enorme diferenciação. Por exemplo, enquanto para se gerar um emprego no setor de comércios no Brasil, em 2006, segunda PEREIRA (2006, p.11), são gatos cerca de US$ 30.000,00, um emprego no cultivo do eucalipto pode chegar a exigir um investimento de até US$ 3,75 milhões, pela indústria VERACEL. Essa disparidade causa grande indignação por parte de organizações não-governamentais que lutam por direitos trabalhistas, ainda mais quando se é levado em conta a atual situação do emprego no Brasil e a grande diferenciação na qual vivemos.

• Transformação da paisagem: algumas áreas de plantação de eucalipto atingem regiões de ecossistemas em risco, o que acaba transformando a paisagem do local, perdendo estas características peculiares de como já citado, também parte de sua tradição. Estes ecossistemas estão sendo muito ameaçados, já que o poderio econômico de empresas como a Aracruz Celulose, acaba transformando a paisagem natural das regiões de cultivo.
Como um exemplo de estudo de caso, temos um artigo elaborado por PEREIRA (2006, p. 11-12), no qual o autor cita algumas críticas relacionadas à implantação da monocultura do eucalipto da região Sul do estado do Rio Grande do Sul, dentre elas:
• Problemas ambientais;
• Concentração da terra, com expulsão imediata dos agricultores que as venderam. O que mostra que as empresas não querem ficar dependentes de parcerias;
• É mais um obstáculo à reforma agrária naquela região;
• Modelo de concentração da terra, de capital e da renda;
• Modelo exportador, cujos impostos já estão todos desonerados pela lei Kandir, contribuindo muito pouco para os cofres públicos dos municípios e do Estado;
• Não gera emprego;
• Gera vazios populacionais;
• O plantio de culturas anuais em consórcio, com o eucalipto, apregoado pelas empresas, só é possível nos dois primeiros anos, pois nos anos subseqüentes a competição por luz, água e nutrientes, inviabiliza as culturas anuais, e finalmente;
• Os investimentos nas grandes fábricas de celulose estão desvinculados da matriz produtiva já existente, instalada na região.
Essas críticas são defendidas pelos trabalhadores da região sul do estado do Rio Grande do Sul, contando inclusive com o apoio de membros das bancadas na Assembléia Legislativa do estado.


Polêmica no Rio Grande do Sul
De acordo com Mora e Garcia (2000), o eucalipto foi introduzido no Brasil em 1904, sendo utilizado inicialmente como matéria-prima de produção de lenhas e dormentes no estado de São Paulo e depois estendendo-se para o Centro e Sul do país. Ainda segundo estes autores: “O setor florestal brasileiro mantém hoje cerca de 4,8 milhões de hectares de plantações florestais de rápido crescimento em regime de produção. São cerca de 3 milhões de hectares reflorestados com eucaliptos e 1,8 milhão de hectares com pinus [...]. Outras espécies, como a araucária, acácia negra e teca também são plantadas comercialmente, porém em menores proporções” (MORA; GARCIA, 2000, p.16). A figura 1 exemplifica a distribuição das plantações de eucalipto ao redor do mundo em 1998. De acordo com Mora e Garcia (2000), nessa época o Brasil possuía área plantada bem reduzida em relação à sua área total.

Figura 1: Distribuição em percentagem das plantações de eucalipto no mundo, 
no ano de 1998.

Fonte: Flynn e Associates, 1999 apud Moura e Garcia, 2000, p.15.
No Rio Grande do Sul, de acordo com Binkowski (2009), no início de 2004 o governo do estado começou uma política pública para atrair empresas do setor florestal, objetivando expandir a produção florestal e desenvolver a região da ‘Metade Sul’2 do estado. No início de 2005:  “[...] tais empresas iniciaram os primeiros investimentos através de compras e arrendamento de terras, efetuaram também os primeiros plantios de eucalipto em novas áreas; ainda existia a previsão de construção de duas fábricas de celulose, além da duplicação da fábrica já existente no RS. Na ótica do Estado essa política florestal iria reerguer a economia estadual” (BINKOWSKI, 2009, p.20). Desde então, uma polêmica em torno deste assunto começou no Rio Grande do Sul, uma vez que as plantações estariam sendo direcionadas para a área do bioma campos sulinos, que tem grande importância na biodiversidade do Rio Grande do Sul. Conforme o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (IBAMA), os campos do Rio Grande do Sul são denominados de maneira genérica de pampa. Segundo o engenheiro agrônomo Carlos Nabinger, em entrevista à reportagem especial “Eucalipto vai invadir o Pampa”, do Jornal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), “a cobertura vegetal do pampa tem mais de três mil espécies, 450 delas são gramíneas e podem servir de forragem e 150 são leguminosas. Elas sustentam 90 espécies de mamíferos nativos e mais de 100 espécies de aves.” (Jornal da Universidade, 2007, p.9). A polêmica girava em torno de que alguns setores da sociedade afirmavam que a silvicultura certamente provocaria danos aos campos sulinos, enquanto que as empresas defendiam os ganhos sociais de tais empreendimentos. Assim, segundo Binkowski (2009): “formou-se um cenário complexo em torno da questão da expansão da silvicultura do RS, onde os principais atores sociais mobilizados eram o próprio Estado, as empresas florestadoras e os grupos ambientalistas. Posteriormente, os “movimentos sociais” agregaram-se à “luta”, polemizando o debate e anunciando que a questão da expansão dos cultivos na “Metade Sul” do RS não poderia ser vista apenas em termos de desenvolvimento econômico e que a sociedade deveria estar ciente dos riscos sociais que esses cultivos poderiam ocasionar à população do pampa gaúcho” (BINKOWSI, 2009, p.21).

Figura 2: Representação da metade sul e norte do Rio Grande do Sul.

Fonte: BINKOWSKI, 2009. Adaptado de Ministério da Integração Nacional, 2007. Conforme Corrêa (2009), poucas regiões são tão propícias para a exploração extrativista florestal como o bioma pampa, uma vez que aqui existe, além de terra, insolação necessária, tecnologia, mão-de-obra e manejo desenvolvidos. Mesmo assim, as divergências quanto ao uso dessas terras para silvicultura são muitas. Pensando em aumentar a produção do setor florestal, e ao mesmo tempo preservar o meio ambiente, o governo do Rio Grande do Sul, juntamente com empresas, órgãos técnicos ambientais e iniciativa privada instituíram o Zoneamento Ambiental para a Atividade da Silvicultura do Rio Grande do Sul. O zoneamento ambiental representa uma divisão do território nacional em parcelas, na qual autoriza-se uma determinada atividade, ou proíbe-se, absoluta ou relativamente, o exercício de outras (CORRÊA, 2009). Ele é importante, pois “visa a subsidiar processos de planejamento e de ordenamento do uso e da ocupação do território, bem como da utilização de recursos ambientais” (CORRÊA, 2009, p. 15). Corrêa afirma que, na visão dos ambientalistas, os campos sulinos não podem sofrer invasão de espécies exóticas; para esses setores, a silvicultura causará impactos irreversíveis se conduzida da maneira que as instituições privadas e o governo propõem. Lorea et al. (2008), em reportagem publicada no jornal Zero Hora e intitulada “A metade sul depois da floresta”, afirmam que de acordo com pesquisa da Associação Gaúcha de Empresas Florestais – Ageflor, 4,5% dos cerce de 11 milhões de hectares de estabelecimentos agrícolas do pampa gaúcho devem estar ocupados, até 2011, por lavouras de pinus, acácia e eucalipto. De acord com a reportagem os ganhos para a metade sul são muitos e a prefeitura do município de Pinheiro Machado fez uma tabela em que constam os ganhos da cidade desde que a Votorantin Celulose e Papel3 se estabeleceu ali, em que constam: um hotel, um restaurante, três lojas, duas farmácias, dentre outros, que juntos empregam mais de 141 pessoas, o que equivale a 1% dos pinheirenses. Em contrapartida, Thuswohl (2006) afirma que estudos realizados pela Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) e pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), "demonstraram que a monocultura do eucalipto é altamente mecanizada em todas as suas fases e demanda pouca mão-de-obra nos locais onde está instalada” (THUSWOHL, 2006, p.2). Segundo Pereira (2006), o ‘deserto verde’ formado pelas plantações do eucalipto “destrói o solo e consome uma enorme quantidade de água. E, além disso, que já é bastante, o monocultivo do eucalipto é capaz de gerar apenas um emprego em cada 185 hectares de terra ocupada” (PEREIRA, 2006, p.42). Já Mora e Garcia (2000) argumentam que a manutenção da mão-de-obra nas plantações de gestão intensiva não ocorre de forma linear, ou seja, a oferta de trabalho diminui drasticamente quando a empresa já está instalada, mas que por outro lado são criadas outras oportunidades de emprego ligadas direta e indiretamente ao empreendimento florestal.
Conforme David (2006), alguns dos impactos ambientais que são causados pelo monocultivo de eucalipto são: a redução da biodiversidade da flora e da fauna do Pampa Gaúcho – onde estima-se existir mais de 3 mil espécies, entre as quais gramíneas e leguminosas forrageiras –, a degradação da fertilidade dos solos – exigindo grandes investimentos de recuperação posterior à colheita –, e compactação pelo uso de máquinas pesadas. A figura abaixo ilustra esta posição, e está presente em reportagem “Eucalipto vai invadir o Pampa”, do Jornal da Universidade de 2007.

Figura 3: Charge do cartunista Santiago.

Fonte: Site do Centro de Estudos Ambientais.
Paulo Mendes, economista e sócio fundador da cooperativa de comércio justo e consumo consciente questiona em artigo “Silvicultura, empregos de papel”: “Será que não tem alternativa para desenvolvimento da Metade Sul? O turismo, a fruticultura, a vitivinicultura, os hortigranjeiros, os frigoríficos, a reforma agrária, a melhoria do rebanho e das lavouras de arroz aplicando tecnologias mais sustentáveis, estas não seriam alternativas mais viáveis e duradouras?” (MENDES, 2007). Como diferentes atores sociais estão envolvidos na polêmica da silvicultura da ‘Metade Sul’, as disputas entre os dois lados vão se renovando e mantendo uma circularidade na discussão, fazendo com que não se vislumbre uma resolução tão próxima para este conflito.


CONCLUSÃO
Com isso é possível notar que mesmo com as empresas se defendendo com vários argumentos a favor do uso deste tipo monocultura, alegando que agem com responsabilidade social e atuam de harmonia com o meio ambiente contribuindo para a proteção ambiental (site:Aracruz), é inevitável deixar de lado as críticas negativas, umas vez que fica evidente que a cultura do eucalipto traz prejuízos sociais como por gerar poucos empregos e ser um obstáculo no processo de reforma agrária, por demandar grandes áreas de plantio, levando a formação de grandes vazios populacionais. Os prejuízos ambientais, por mais que as empresas fazem uma propaganda favorável são evidentes, pois nem todas as áreas de cultivo são bem manejadas como as produtoras alegam, e isso gera diversos impactos ambientais negativos, desde na degradação do solo, perda excessiva de água, acarretando em um enorme prejuízo na biodiversidade, tanto da fauna quanto da flora.
E com o aumento constante significativo das plantações de eucalipto no país estes impactos, tanto na área ambiental como na social, cada vez mais facilmente serão notados,e o “deserto verde” cada vez mais característico em nosso país.


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Não, nada de piqueniques! 

O encanto das paisagens numa tela é que elas não têm cheiro, nem temperaturas, nem ruídos, nem mosquitos. Nada, enfim, do que acontece nas desconfortáveis paisagens reais. Quando estive no Rio, o P.M.C.¹, meu colega, amigo e editor, se ofereceu para “uma tarde destas” me mostrar o Rio. Agradeci-lhe horrorizado:

- Não, muito obrigado, Paulinho! Eu sou evoluído: o que mais me agrada no Rio são os túneis...
Creio que ele suspirou de alívio.

Pois bem que ele deveria saber, como poeta de verdade, que nunca se deve ser apresentado a uma paisagem. É uma situação embaraçosa. Nem ao menos se lhe pode dizer : “Muito prazer em conhecê-la, minha senhora!”
Esse não pode ser um conhecimento voluntário, aprazado, mas uma lenta osmose inconsciente, de modo que no fim se fique pertencendo à paisagem, e vice-versa.
Não se pode conhecer nada num minuto e só por isso é que os turistas não conhecem o mundo.

Jamais acreditei em observação direta, principalmente quanto à criação poética. Tanto assim que quase dei a um de meus livros o belo título de “O Viajante Adormecido”. Só não o fiz porque a Gabriela me observou que o poderiam apelidar de “O Leitor Adormecido”...
Fraqueza minha! E por que não o “leitor adormecido” mesmo? A comunicação poética, no seu mais profundo sentido, não é acaso subliminar? Os poetas que dizem tudo acabam não dizendo nada. Porque a poesia não é apenas a verdade... É muito mais!

A Poesia é a invenção da Verdade!!!
(Mario Quintana) 

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"AS INDAGAÇÕES: A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas!"
(Mário Quintana)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Quatro elementos que eu canto...


Gaúcho em quatro elementos...
(Diego Müller/Rodrigo Bauer)

Quatro elementos que eu canto, por ser campo em seus mandados,
vão na essência do campeiro que já nasceu bem montado...
São ferramentas de campo, grotesco aparelhamento.
Nos três países da pampa: gaúcho em quatro elementos!

O laço que, a bate-cola, é brisa mansa em ternura,
se arma, altivo, em ventanias, pra ser rei pelas alturas...
Couro e perícia na trança, história e força nos tentos,
a argola voa e assovia fazendo dueto com o vento!

A faca é sanga prateada que faz verter a sangria...
Reflete a lua na folha, espelho d’água e magia!
Água que corta o destino, assim cristalina e pura,
matando a sede dos tempos, aquerenciada à cintura!

As esporas cantadeiras, tal fossem clarins de guerra,
são estrelas que preferem ficar aqui pela Terra!
Enraizaram seu brilho onde termina o garrão
e mostram a cor da terra, erguendo poeira do chão!

O mango é feito de couro, sovado como uma seda,
mas, quando empresta um laçaço, levanta até labareda!
Tem cisma de fogo grande quando se ergue entonado,
queima em brasa de espinilho quando não solicitado!

Cada qual ante sua sina de ser querência e mais nada.
Nas voltas da lida bruta seguem topando a parada.
Faca é água, espora é terra, mango é fogo, laço é vento...
Nos três países da pampa: gaúcho em quatro elementos!

Música de Mário Barbará
Interpretada por Marco Aurélio Vasconcellos, 
consagrada como MELHOR LETRA na XXVII Ronda de São Pedro, em São Borja/RS, em 2012.


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(Programa de TV Vida no sul, sobre Dego Muller e Erlon Péricles - 2011)

(Ferrer Dalmau)

"Cada dia a natureza produz o suficiente para nossa carência. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário, não havia pobreza no mundo e ninguém morreria de fome!"
Mahatma Gandhi